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QUESTÕES DE GÊNERO NA SUBCULTURA GÓTICA

“Eu me comunico pelas minhas roupas” já nos ensinava nos anos 1970 o semiólogo Umberto Eco, mais tarde famoso também como romancista autor de “O Nome da Rosa”.


Como o Sherlock Holmes medieval daquele romance, a semiótica e a linguística nos ensinaram a ler o mundo, seja nos “textos” da escultura, do cinema, dança ou vestuário, do comportamento, entre outras produções humanas que se constituem como discursos.


Doutora em estudos culturais e pesquisadora de subculturas, Dunja Brill também explora os subterrâneos simbólicos, e escreveu nessa obra sobre os jogos de poder de gênero, especialmente na cena Gótica.


Ela explica que há um tipo diferente de organização dos papeis gênero na subcultura gótica, apesar de muitos problemas tradicionais permanecerem.


Pois ao contrário do que se relatou no passado, explica Brill, na realidade e prática o estilo Gótico não é andrógino: é hiper-feminilizante para as mulheres, ao mesmo tempo que cria um tipo de masculino que incorpora o feminino, mas que também não pode ser confundido com o andrógino típico.


O visual gótico masculino não busca parecer mulher ou indefinido, mas criar um tipo de masculino coerente com discurso simbólico da subcultura gótica, (P. Hodkinson,“Goth”, 2002).


Essa hiper-feminilização da mulher gótica pode ser vista de duas formas: como um empoderamento ou como uma conformidade à regra social. Como sempre, o significado do símbolo será dado pelo contexto da frase, do emissor e do receptor.

Na cena gótica, atualmente, vemos o visual feminino ser usado mais como símbolo de empoderamento, associado muitas vezes ao discurso de “bruxas da atualidade”. Não por acaso, tem crescido na subcultura gótica o imaginário de “sagrado feminino”.


Dunja Brill destaca que é melhor existir uma subcultura cujo discurso aponta para uma utopia de “genderlessness” (ausência de caracteres de gêneros socialmente definidos) do que outras subculturas que desenvolvem um discurso sistemático de reforço de valores conservadores ou tradicionais.


Brill aponta que o discurso do gótico e de outras subculturas constroem uma representação de mundo, que ela define como utópica. Utopias são intenções e projetos, individuais e coletivos.


Essa utopia pode não se realizar no coletivo ou totalmente, mas acaba alterando as relações micropolíticas reais da nossa vida cotidiana. Como é comum dizer, “as utopias são o motor da realidade”.


Como Brill salienta em outro trecho, vários autores relatam que setores de “culturas ligadas à música alternativa tendem a associar o comercial e o inautêntico com o feminino”, se definindo assim preconceituosamente contra um suposto “mainstream feminilizado de produção de massa”.


Assim, muitas vezes o “EBM e Industrial são considerados domínios masculinos, enquanto estilos mais suaves como o synthpop são ridicularizados como “música para meninas”, (p 154)... ou “viados” (veja a resenha do livro “Sex Revolts” na página 50).


Nesse contexto machista e preconceituoso, mesmo artistas homens, que adotam um estilo mais romântico e sensível, ou “como Lacrimosa, Goethes Erben ou Illuminate” que apresentam uma versão de masculinidade que incorpora aspectos historicamente considerados femininos da personalidade, são rejeitados pelos “garotos durões” de subculturas com uma simbologia e discurso mais “masculinista”, ou mesmo por indivíduos conservadores da própria cena gótica. Porém, ressalta a autora, esses artistas “têm um grande número de seguidores entre góticos de ambos os gêneros (p.156).


A maioria das discussões musicais no meio alternativo não tem a ver com música, mas com a manutenção de domínios de status e poder de um segmento sobre outro, em que questões como machismo, misoginia, homofobia, preconceito de classe e racismo são disfarçados sob discursos de outros assuntos. Nesse sentido, o caráter utópico de uma subcultura progressista é importante como projeto e prática de desconstrução desses discursos.


Como qualquer grupo social, a realidade da subcultura gótica não é perfeita, nem é isenta de indivíduos com comportamentos incoerentes ou antiéticos, mas o projeto coletivo estabelecido pelo discurso estético da subcultura gótica abre um espaço social que realiza em seu microcosmos uma utopia positiva e mais libertária se comparada a algumas outras subculturas ou à regra da sociedade dominante.


SEX REVOLTS: Nesse livro de 1996 Reynolds e Joy Press comentam que o rock era até certa época um “clube de garotos brancos raivosos”.


Muitos movimentos do rock levantavam a bandeira da rebeldia e liberdade, mas na estética e na prática, geralmente essa liberdade era do ponto de vista de jovens homens brancos que objetavam ou apagavam tudo que não fosse jovens homens brancos: para mulheres, sobravam os lugares de groupies ou backing vocals, ou capas sexy de álbuns.


Posteriormente surgem, paralelamente, outras vertentes dentro do Rock, (e do pop) em que os homens incorporam o lado feminino e os discursos começam a ser menos objetificantes e conservadores.


Mas as práticas demoram a mudar, e surgem novas vertentes do rock e underground que criticam o rock por estar “se viadizando” (para o machista, humanização é sinônimo de “desmasculinização” e perda do seu privilégio).


Assim, a linha conservadora e machista do rock pode ser vista até hoje, paralela às linhas mais libertárias, gerando inúmeros conflitos entre prática social e discursos artísticos.

Leia mais sobre a subcultura gótica:


PORQUE A SUBCULTURA GÓTICA É LIBERTÁRIA?

ARTIGOS SOBRE A SUBCULTURA GÓTICA BAIXE NOSSOS LIVROS E REVISTAS SOBRE A SUBCULTURA GÓTICA

Bibliografia citada nesse artigo : Goth Culture: Gender, Sexuality and Style – DUNJA BRILL (2008)

Sex Revolts: Gender, Rebellion and Rock'N'Roll – JOY PRESS e SIMON REYNOLDS (1996)








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