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Do KRAUTROCK aos ANOS 80




Texto de Alex Antunes


"O Krautrock serviu, ao lado de outras referências setentistas,

como o dub e o funk – de matriz para o Post-Punk. Foi a essa

receita que John Lydon, ex-Johnny Rotten, recorrereu,

quando teve que subir a aposta artística."

O que viria a ser chamado de “krautrock”, ou o progressivo alemão, é produto de uma combinação de circunstâncias. Que o tornaram num tipo de som distinto, que em geral ficou bem menos datado que o rock progressivo em geral (com algumas honrosas exceções).


É por isso que serviu – ao lado de outras referências setentistas, como o dub e o funk – de matriz para o pós-punk. Como melhor exemplo, foi a essa receita que John Lydon, ex-Johnny Rotten, recorrereu, quando teve que subir a aposta artística, com o final dos Sex Pistols.


E que circunstâncias seriam essas?


1) Tinha chegado à idade adulta a primeira geração nascida após a segunda grande guerra. Portanto ela podia colocar de lado os complexos do nazismo e da derrota. Não só se afirmar como não-responsável, como afrontar os resquícios de nazismo da velha geração, ainda protagonista na sociedade. Esse radicalismo pode ser atestado pelo fato dos músicos do Amon Düül e os membros do grupo terrorista Baader-Meinhof terem partilhado a mesma comuna em Munique;


2) A Alemanha tinha sido tutelada até então pelos EUA – mas a América estava em plena crise moral e política, acuada pela juventude contra o conservadorismo e o imperialismo, particularmente quanto à a guerra do Vietnã. O desprezo pelo schlager, o diluído pop alemão, expressava a revolta tanto contra os submissores como contra os submissos. Nas palavras de Edgar Froese, do Tangerine Dream, não havia nada a perder, por isso a música tornou-se freeform;


3) Havia um clima generalizado de revolução jovem, dos dois lados do Atlântico. Ao mesmo tempo, muitos desses jovens hippies alemães (Damo Suzuki, do Can, se disse menos hippie do que “transportador metafísico”) não se satisfariam com os clichês do rock, como... guitarras. Pelo menos as convencionais.


A ainda incipiente oferta de instrumentos eletrônicos foi desde o início uma fonte de fascínio. Por exemplo, nos vídeos dos primeiros shows do Kraftwerk, em 1970, Ralf Hütter aparece tirando timbres engraçados de um Tubon, o avô dos keytars, construído em 1966.


Antes de ter acesso a sintetizadores, o duo Cluster usou osciladores, seguindo a trilha dos pioneiros Silver Apples. Segundo Klaus Schulze (Tangerine Dream, Ash Ra Temple), o fato da música eletrônica não ter uma linguagem consolidada era um atrator;


4) O fator vanguarda: Colônia era a cidade de Stockhausen e de seus cursos de música nova. Irmin Schmidt e Holger Czukay do Can estudaram com ele (Zappa e Duprat, o maestro da Tropicália, também). Mas outros músicos alemães manifestavam esse tipo de interesse, citando John Cage, Yoko Ono, Velvet Underground (onde tocou John Cale, de formação vanguardista).


Um dos hubs iniciais do krautrock, o Zodiak Free Arts Lab de Berlim, foi pensado como uma espécie de combinação da Factory de Andy Warhol com o ICA, o Institute of Contemporary Arts de Londres;


5) Esse ambiente formou o que Jaki Liebzeit, o baterista do Can, ex-baterista de jazz que foi um dos formuladores do “motorik” (a batida linear do krautrock) chamou isso de “revolução mental” (o Can surgiu quando a revolução parecia estar nas ruas, em 1968). Klaus Dinger é considerado o pai do motorik, e era metade do Neu!, com Michael Rother, para quem o ponto central era a negação do blues (o que estabelece um ponto em comum com as bandas mais experimentais do prog fora da Alemanha, como o King Crimson).


Curiosamente, a bateria primitiva de Maureen Tucker, do Velvet, também é uma das fontes. O inglês Jono Podmore, curador dos arquivos do Can, descreve o motorik de uma maneira curiosa: se a batida do funk respira, é sístole e diástole, a batida alemã é só expiração maquínica, sem a síncope (a deslocadinha) da música negra. O Kraftwerk exploraria esse viés até o “man machine”;


6) Essas bandas vinham de várias cidades (as principais sendo Berlim: Tangerine Dream, Kluster, Cluster, Ash Ra Temple; Munique: Amon Düül, Popol Vuh; Colônia: Can; Dusseldorf: Kraftwerk, Neu!; Wümme: Faust). Ainda que algumas figuras conectem várias delas (Conrad Schnitzler fundou o clube Zodiac FAL, o Tangerine Dream, o Kluster – que deu origem ao Cluster, sem ele, e ao Harmonia, reunindo o duo do Cluster, Moebius e Roedelius, a Rother do Neu! – e o Eruption, que reuniu Manuel Göttsching a Klaus Schulze, por sua vez fundadores do Ash Ra Temple), uma boa parte das dezenas de bandas surgidas entre 1967 e 1970 e poucos só tinham em comum o zeitgeist, o espírito da época.


Esse zeitgeist determinou que bandas de formação convencional, como o Can (baixo, guitarra, bateria, teclados, voz) estivessem entre as mais inovadoras. Já outros rumaram (no caso, no terceio disco) para a eletrônica absolua, como os “conectores” Ralf Hütter e Florian Schneider, estudantes de música que vinham do Organization, e acabaram por juntar Dinger e Rother, do Neu!, numa breve formação do Kraftwerk. Como vários outros discos da cena, o único disco da Organization, de 1969, foi um dos primeiros produzidos por Conny Plank, que é um dos depuradores do estilo;


7) A estética resultante era futurista (de propósito, eu deixei de fora as bandas consideradas krautrock mas mais ligadas ao hard/ blues rock, ao folk e à música étnica, e ao jazz-rock/ fusion – ainda que algumas das citadas, como Popol Vuh, tivessem sons bem bucólicos). E iria repercutir dez anos depois. Não à toa, na cena britânica, envolvida com conceitos cyberpunk (da literatura de J. G. Ballard) e estilizações contra-tradicionais. As capas do Neu! já eram pura new wave, assim como as não-costeletas, cortadas rente, de Hütter e de Karl Bartos, do Kraftwerk.


Na verdade, alguns anos antes, Brian Eno, quando estava sem rumo para seu glam rock, foi ao encontro do Harmonia, e voltou com os conceitos de ambient music, de no musician e de ênfase na timbrística (a escolha de timbres não-naturalizados).


David Bowie, fugido de Los Angeles, tinha chegado a Berlim, para gravar Low, disco que de um lado é soul-funk estilizado, e do outro ambiente (e “Hero” é o nome de uma faixa do Neu! – Bowie desistiu de chamar Rother para a guitarra de seu segundo disco berlinense, e chamou Robert Fripp, do King Crimson, mas a referência ficou.


O termo “krautrock”, inicialmente pejorativo – “chucrutrock” – surgiu na Inglaterra, mas a fonte era valiosa). E os anos 80 estavam projetados – o Faust, em seus experimentos, até já apontava diretamente para a segunda metade dos anos 1980, o rock industrial;


8) A Alemanha, em todo caso, seguiu seu próprio rumo na música eletrônica e de invenção – não é à toa que o pós-punk alemão, a chamada Neue Deutsch Welle, foi das mais interessantes, e que alguns desses, como Conrad Schnitzler, estavam em seu ápice nos anos 80.


Se antes o italiano Moroder foi a Munique para fundar a disco europeia, DJ Hell é o herdeiro. Em Berlim, um ex-punk escolhe o nome de Westbam, significando o Bambaata da Westphalia. E, apesar de muitos dos membros dessas bandas já terem morrido, alguns seguem em atividade inclusive. A versão maquinal que o Kraftwerk deu ao funk americano continua apontando para o futuro.


Para ler mais: O Pós Antes do Punk - Alex Antunes História do Punk Funk Britânico - Alex Antunes

Motorik 1970-1978: do Krautrock ao Joy Division (depoimentos da banda)


"Nós Imitamos o Kraftwerk..." (depoimento de Peter Hook- Joy Division)

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