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  • H. A. Kipper

MITO  10:  “O VERDADEIRO GÓTICO É SÓ O ESTILO ANOS 80”


MITO 10: “O VERDADEIRO GÓTICO É SÓ O ESTILO ANOS 80” Essa frase faz tão pouco sentido quanto dizer que só os brasileiros e estilos do século XVIII são verdadeiramente brasileiros...

Mas fora o absurdo auto-evidente, vamos analisar essa frase mais um pouco, pois ela esconde outras incoerências.

Esse mito aparece também como "gótico é só post-punk" ou "gótico é outro nome do dark". Reduzir gótico a apenas “post punk” é um movimento que exclui a maior parte dos góticos, inclusive os com mais tempo de vivência na cena gótica. Essa redução interessou a crítica musical mainstream, que ignorou a evolução do estilo gótico já na segunda metade dos anos 1980 e também a partir da “Neue Deutsche Todeskunst” e desenvolvimentos posteriores.

Esse problema se relaciona a confusão que existe no Brasil entre “dark” e “gótico”, dois movimentos importante, com pontos em comum, mas diferentes.

“Dark” foi um nome criado pela imprensa brasileira para classificar o conjunto post-punk/new-wave/no wave/punk que chegava misturado e atrasado ao Brasil. Neste aspecto o Dark brasileiro seria algo aproximado ao post-punk/new wave internacional (lembrando que o rótulo dark só foi usado neste sentido aqui).

Como a imprensa musical mainstream limita gótico apenas aos estilos dos anos 80, se criou a confusão que permitiu usar dark e gótico como sinônimo. Mas isso só foi possível pois jornalista musicais “especializados” passaram a ignorar a continuidade e evolução do gótico após 1990. Assim, o post-punk brasileiro se estendeu até quase o ano 2000... e talvez até hoje.

No final dos anos 90 (ou seja, 20 anos atrás!) já discutíamos na cena gótica o problema do “oitentismo” exagerado da cena gótica brasileira, e da necessidade de atualização com o que acontecera nos anos 90. Muitos bons projetos trabalharam neste sentido, mas o problema permanece em pleno 2018.

É notório o aspecto revival da cena brasileira, ainda mais com a recente moda Joy Division e post punk/coldwave entre hipsters/indies e o revivalismo Batcave especialmente em uma sub-cena especialista Deathrock.

É ótimo termos especializações, é algo que surge naturalmente com a durabilidade das subculturas ou cenas musicais. Mas uma especialização que busca apagar todas as outras vertentes é um processo doentio: imagine um movimento de Rockers que queira dizer que o único rock realmente rock é o dos anos 50... seria chamado de insano, não?

Claro que há tradições históricas e desenvolvimentos coerentes, mas é importante não confundir coerência com revivalismo. Coerência significa algo novo e diferente que significa o mesmo em novo contexto. Revivalismo é repetição do mesmo.

Pois revivalismo é algo que acontece com subculturas que morreram: elas permanecem fazendo o mesmo da época em que surgiram, mesmo que o significado daquelas coisas seja outro. Um movimento nesse sentido é fatal ou resultado do fim de uma cultura: mesmo bandas novas continuam reproduzindo identicamente os estilos do passado, e acaba restando um pequeno clube revivalista, seja de um estilo musical (veja-se os vários bailes da saudade, que também atraem jovens), filmes ou publicações antigos, etc. Como os bailes de bolero, rock 50’s ou valsa que ainda existem até hoje: são segmentos revivalistas, não subculturas vivas.

Também, para quem como eu entrou na cena gótica entre 20 e 30 anos atrás, Batcave era só uma das muitas vertentes que curtíamos na cena gótica, que incluía também todas as vertentes de gothic rock (linha Sisters/Fields/Garden of Delight, etc), Neue Deutsche TodesKunst, darkwave, ethereal, synth, electro-industrial, EBM, electro-medieval, neo folk, etc.). Estilos derivados das influências musicais que a música alternativa desenvolveu nos anos 1960 e 1970 e que influenciaram o surgimento do universo musical gótico/darkwave.

Como já comentamos, o gótico já nos anos 80 incluiu muitas influências que vão além do post-punk. Bandas de gothic rock góticas incluíram os mais diversos estilos de forma criativa em uma grande renovação nos anos 1990.

Porém hoje a ideia de revivalismo 80’s e Batcave traz um movimento de exclusão de estilos tradicionais, restrição e apagamento de possibilidades góticas. Reduz o espectro gótico a uma pequena parcela, reforçando ainda um movimento oitentista.

Isso esconde ainda a ideia de modelo de cena igual a dos anos 80, algo que como já comentamos antes, é um suicídio em pleno final da década de 10. Em uma realidade em que as pessoas estão recebendo o tempo todo informação atualizada sobre os desenvolvimentos atuais da subcultura gótica a nível global e local, tentar se fixar em um modelo restritivo e do século passado só tem sentido junto com os demais mitos que comentamos, com o objetivo de manter uma cena diminuta de modelo ultrapassado.

Nenhum destes mitos age sozinho: eles funcionam em conjunto, como um sistema de auto-alienação que destrói possibilidades de desenvolvimentos culturais para uma cena gótica no Brasil, apesar de termos todos os recursos materiais e culturais para isso. VOLTAR PARA O TEXTO "10 MITOS QUE PREJUDICAM A CENA GÓTICA BRASILEIRA"


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