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Historiadora paranaense realiza pesquisa sobre a cena gótica curitibana

Historiadora paranaense realiza pesquisa sobre a cena gótica curitibana Beatriz Carazzai Pereira


Há muito góticos de todo o Brasil vêm pedindo maior visibilidade para a subcultura, e foi desejando contribuir com a nossa subcultura a nível nacional e local que eu iniciei minha pesquisa de mestrado “O Gótico está morto-(vivo): A subcultura no diálogo com as memórias de góticos de Curitiba-PR”, através da UNESPAR - Campo Mourão. Meu objetivo é coletar as memórias de góticos da cena curitibana através de rodas de conversas em encontros góticos, que ocorrem em espaços públicos da cidade como parques e cemitérios, e acolher estas memórias a fim de compreender melhor a subcultura de maneira científica, e divulgá-la para o público geral através de uma mostra cultural: uma festa gótica aberta ao público no Largo da Ordem de Curitiba-PR, em que vamos montar estandes expondo artes de góticos locais, convidando pessoas para conversar sobre a pesquisa. 


Esta é uma pesquisa numa área recente da historiografia no Brasil: a História Pública, e tenho orgulho de fazer parte do primeiro programa de pós-graduação em História Pública do Brasil. Há muitas definições e debates sobre o que constitui “História Pública”, mas podemos defini-la como uma área da História que lida com a relação entre história e público(s), tendo o público como protagonista da História. 


O historiador Ricardo Santhiago coloca os seguintes modos de fazer História Pública: história “com” o público, “pelo” público, “para” o público e “sobre” o público. Ou seja, pensamos numa História que não se feche na academia, mas que busque o diálogo e a pesquisa com pessoas comuns, que não sejam apenas historiadores ou acadêmicos, compreendendo que cada um de nós, independente da formação, é um agente histórico que vive suas histórias e carrega memórias e narrativas sobre suas vivências. Um dos grandes pilares da História Pública também é a divulgação científica, e pretendemos fazê-la através desta mostra cultural em espaço público, onde pessoas fora da academia podem interagir com nossa pesquisa e principalmente com os que a tornam possível: os góticos. 


Curitiba foi escolhida para a realização da pesquisa por alguns motivos: é a capital paranaense, tendo uma vida noturna agitada que contribui para uma cena gótica ativa. Mas também não tem uma cena grande como São Paulo – Rio de Janeiro, o que gera uma rede social mais próxima e coesa entre os membros da cena. Além disto, muitas pesquisas já foram feitas acerca das cenas cosmopolitas de SP-RJ, e carecemos de produções científicas sobre o gótico regional. 


Uma das coisas mais fascinantes sobre a cena curitibana é que ela transforma a necessidade em invenção: como organizadores de eventos carecem de recursos para contratar artistas nacionais ou internacionais famosos no meio gótico, Curitiba produz seus próprios artistas: sejam eles DJs, produtores musicais, bandas, artistas visuais e plásticos, poetas e escritores, etc. Sabemos que a produção de artistas locais se dá em qualquer cena gótica ativa, mas creio que Curitiba têm mostrado uma grande agitação underground neste sentido que merece ser pesquisada.


Outro aspecto importante é a ocupação do espaço público. Em Curitiba, o mais próximo que temos de uma boate gótica é o 92º Graus, uma casa noturna dedicada ao underground no geral, abarcando eventos de outros gêneros como punk e hardcore. Ou seja, não temos um equivalente ao Madame paulista. Portanto, precisamos ocupar espaços públicos para realizar encontros. Nestes encontros compartilhamos as artes que consumimos e criamos, algo precioso em um momento histórico em que raramente paramos para falar de arte ou criar laços na esfera pública. Estamos sempre com pressa, correndo para o próximo compromisso, e estes encontros públicos permitem que nademos contra a maré do relógio. 


Desvendando o contexto histórico do Gótico: 


Algumas coisas sempre me incomodaram desde que entrei na subcultura, em 2012, quando era apenas uma baby bat de 13 anos. Os estereótipos absurdos de uma parcela conservadora do público não-gótico (de que vandalizamos cemitérios, por exemplo), e a redução supérflua do gótico a um estilo de moda (que foi usada e abusada pela comodificação do Gótico). Mas creio que o Gótico é muito mais que isso: além de uma subcultura musical, engloba uma série de manifestações artísticas e estéticas que revelam visões de mundo contra o mainstream. E tudo isto é fruto de um contexto histórico e cultural. É este contexto que eu quero explorar, a partir das peculiaridades da cena curitibana. 


Com ajuda de minha orientadora, profª drª Cyntia Simioni França, percebi no autor Walter Benjamin (em quem baseio meu método de análise) diversas menções a artes do século XIX que tratavam da morte, em uma estética “gótica”. Walter Benjamin era um filósofo e crítico de arte judeu-alemão, que viu a Segunda Guerra mundial e os horrores do Nazismo, e contextualizou a história que ele vivia, principalmente a partir da arte e estética.


Em conjunto com outros autores como Andreas Huyssen, Michael Löwy e Olgária Matos, encontramos na nossa pesquisa uma relação entre manifestações artísticas mórbidas e o advento da industrialização capitalista. Este fenômeno capitalista, que chamamos de “modernidade”, trouxe muitas inovações tecnológicas e científicas para nossas vidas desde então. Mas também trouxe ditaduras, genocídios, fascismo, e o apagamento das nossas histórias e memórias, e este é um grande paradigma do nosso tempo presente.


Passamos a igualar o progresso tecnológico a um progresso universal humano, o que não tem embasamento factual. Ainda que tenhamos hoje Wi-Fi, inteligência artificial, carros, aviões, etc., há pessoas em situação de rua por todo o mundo, grupos étnicos que são assassinados e perseguidos, governos que oprimem suas populações, a destruição do nosso planeta e espécie. Enfim, uma série de atrocidades que ocorreram e ainda ocorrem na história humana. Benjamin nos diz que nós, humanos modernos, percebemos (mesmo que inconscientemente) este mal-estar da nossa sociedade, e transmitimos isto nas artes. A angústia do ser humano moderno é, de certo modo, a desilusão com um potencial não realizado. Ora, se evoluímos tanto, por que há ainda tanto sofrimento? Então nos voltamos a estas manifestações estéticas mórbidas como uma forma de catarse, afinal, somos constantemente confrontados com a mortalidade da nossa história, nosso modo de vida e, mais recentemente, nossa espécie e planeta. 


Creio que o Gótico mostra essa desilusão em suas artes e, principalmente, em suas letras musicais, e esta ferida é tão aberta que mesmo os góticos que dizem que a subcultura é “apolítica” se conectam com suas mensagens melancólicas. O que Lupercais nos diz em “Espectros”, que “a morte nos abandonou”, Andreas Huyssen também dirá: que nós somos obcecados com o passado pois sabemos que, nessa constante atualização tecnológica, nossas memórias se perdem. Então precisamos acordar nossos mortos constantemente, colocá-los em museus, para sentirmos que temos uma História. Benjamin ainda diz que, no século XIX, há uma grande produção de artes que tratam de espectros e fantasmas, que vagam pelo presente pois tem assuntos que não foram resolvidos em vida. Isto é uma metáfora para nós, humanos modernos, que não processamos nosso passado e suas atrocidades, vivendo assombrados, com um presente que não faz sentido e, consequentemente, não temos perspectiva de futuro. 


Mas a beleza do Gótico é que, ao focar nesta melancolia, na “eterna mágoa” (citando Augusto dos Anjos), tomamos o primeiro passo que é o reconhecimento dos problemas do presente, e isto é um protesto artístico e político. Principalmente fortalecendo o caráter underground do Gótico, temos um “trunfo” de ação política que é a tomada de consciência histórica e de classe, a partir da percepção desse mal-estar e melancolia. E vejo que artistas como Plastique Noir, em seu álbum mais recente, já vem nos encaminhando para o que sinto que será uma “nova onda” gótica, mais explicitamente politizada, e quem sabe, até revolucionária. 


Portanto, convido góticos de todo o Brasil para ficarem ligados na produção desta pesquisa. Se você, caro leitor, assim como eu, sempre teve uma “pulga atrás da orelha” sobre o significado histórico e político do Gótico, espero que esta pesquisa ajude a elucidar suas inquietações. Mas, acima de tudo, espero colaborar com a divulgação e fortalecimento do Gótico e de nossos laços nas cenas locais, para que tomemos aquilo que o Gótico tem de melhor para oferecer: uma brecha para a luz através das sombras. 



Beatriz Carazzai Pereira Mestranda em História pela Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR). Brasileira, residente em Guarapuava - PR. Email: beatrizcarazzaip@gmail.com


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