HISTÓRICO CONSERVADOR do UNDERGROUND e do ROCK


HISTÓRICO CONSERVADOR do UNDERGROUND e do ROCK: análise crítica


Não é novidade: há uma forte corrente conservadora no rock e no underground desde a sua origem.

Decepcionante, mas não surpreendente: o Rock se popularizou nos anos 1950 como o apagamento de artistas afrodescendentes*, com garotos brancos “aceitáveis” para a mídia de massa que cantavam letras em que o lugar da mulher era decorativo ou totalmente objetificado.


Mais adiante, nos anos 1960, com Beatles, Rolling Stones e outros grupos, a situação não mudou muito. Vemos as mulheres e afrodescendentes avançarem socialmente mais fora do rock. A homofobia era default embutido no discurso de “macho alfa dominante”. Isso só vai mudar um pouco nos anos 70, em algumas vertentes apenas. A música “de mulherzinha e viados” vai seguir outro roteiro, sendo usada como marcador de preconceito mesmo em circuitos alternativos.


Algumas subculturas estigmatizam outras subculturas exatamente usando a linguagem-disfarce de “música de viado” ou “música de menininha”. Claro, se qualquer um for interrogado dirá que “estou falando só de música”, da mesma forma que qualquer racista ou homofóbico nunca admite o significado das linguagens-disfarce que usa: sempre é “outra coisa”.


Joy Press e Simon Reynolds comentaram em seu livro “Sex Revolts” (1996), o rock era até então um “clube de garotos brancos raivosos” algo que para várias vertentes do rock continuou ao longo dos anos 70 e até hoje. Ainda hoje, o rock é um dos estilos em que menos vemos afrodescendentes e mulheres.


Muitos movimentos do rock levantavam a bandeira da rebeldia e liberdade, mas na estética e na prática, geralmente essa liberdade era do ponto de vista de jovens homens brancos que objetificavam ou apagavam tudo que não fosse jovens homens brancos: para mulheres, sobravam os lugares de groupies ou backing vocals, ou capas sexy de álbuns. Mas Joy Press e Reynolds lembram que posteriormente surge paralelamente uma outra vertente dentro do Rock, em que os homens incorporam o lado feminino e os discursos começam a ser menos objetificantes e conservadores.


Mas as práticas demoram a mudar, e surgem novas vertentes do rock e underground que criticam o rock por estar “se viadizando” (para o machista, humanização é sinônimo de “desmasculinização” e perda do seu privilégio). Assim, a linha conservadora e machista do rock continua a existir até hoje, paralela com as linhas mais libertárias.


A escritora e pesquisadora de subculturas, Dunja Brill também escreveu em seu livro de 2008 sobre os jogos de poder de gênero especialmente na cena Gótica. Isso merece um artigo especial, que postamos aqui.


As mulheres acabam achando algum espaço em uma subcultura puramente de mulheres (o que apesar de ser um avanço, é exatamente um sintoma revelador de um problema geral), as Riot Grrls, ou, de outra forma, em subculturas que valorizam a simbologia feminina como a Gótica (algo que precisamos explicar longamente, como cita Dunja Brill, pois há um tipo diferente de organização dos papeis gênero na subcultura gótica, apesar de muitos problemas permanecerem). Saiba mais sobre Riot Grrls aqui e aqui.


São poucas as subculturas em que elementos de feminilidade são reforçados, ao ponto de ser criado um padrão feminino para os homens: geralmente cabe às mulheres, para serem aceitas, incorporar características psicológicas ou simbólicas que são culturalmente classificadas como masculinas na sociedade dominante, e poucas vezes vemos homens sendo incentivados a incorporarem o feminino.

A subcultura gótica é talvez um caso único (ou um dos poucos) entre as subculturas, gerando a tensão entre as características da subcultura gótica e as características da parte conservadora do underground ou do rock, e claro, da sociedade em geral. Já comentamos aqui sobre as características simbólicas que sustentam o caráter libertário da subcultura gótica, presentes desde seu início.


Assim, não é coincidência o estilo gótico sofrer preconceito a partir de outras subculturas do cenário alternativo ou do chamado “underground”, que estão mais próximas do padrão social de “normalidade heteronormativa” social nesse aspecto dos papeis sociais públicos, de gênero ou de visual. Enquanto hoje outros estilos são mais bem aceitos socialmente, o estilo gótico continua a ser incômodo, especialmente o estilo gótico masculino.


O estilo gótico feminino, por outro lado, tende a ser objetificado tanto no mainstream quanto muitas vezes por outras subculturas. Não que não exista indivíduos incoerentes e machistas também na subcultura gótica, mas como a própria Brill aponta, na comparação com a sociedade dominante e algumas outras subculturas, temos uma diferença positiva real e uma utopia coletiva “a-gênero” (genderlessness) a buscar.


Pois ao contrário do que se relatou no passado, explica Brill, na realidade e prática o visual Gótico não é andrógino: é hiper-feminilizante para as mulheres e com a criação de um tipo de masculino feminilizado que não pode ser confundido com androginia: o visual gótico masculino não busca parecer uma mulher, mas criar um novo tipo de masculino que aponte para o reforço de certos valores (Hodkinson, 2002; Brill, 2008).

Ainda dentro da subcultura gótica temos um ponto de incoerência e conflito atualmente no Brasil: o fato do lugar de poder do “homem branco hetero” permaneceu intocado no underground através de uma hierarquização e divisão do trabalho artístico: a música, especialmente bandas, serviram tradicionalmente como falo masculino, deixando em muitos casos para mulher o mesmo lugar do artista nas sociedades tradicionais (Kurz, 1997): do artista “sensível” (em oposição ao homem sério “inteligível” e “significativo”), de decoração, do belo selvagem.


Assim, também o papel da moda e vestuário é considerado uma arte menor no underground, pois “feminino” (assim com a dança, maquiagem e certos estilos musicais). E o homem que se preocupa com visual, passa a sofrer a mesma crítica que as mulheres. Também, muitos estilos musicais são considerados “coisa de mulher ou de viado” (como Dunja Brill cita em seu livro), pois para machista conservador ambas as definições seriam ofensas.


Mas as mulheres conhecem e curtem muito de música, mas geralmente não a usam como instrumento de construção de capital cultural por escolha... OU isso lhes é vedado como discurso de inserção social de uma forma que é melhor não entrar na competição de quem "tem pinto maior" no conhecimento musical, comum no underground, com clima de quinta série primária? Ambas as possibilidades são plausíveis: as vezes quando uma estrutura social é muito refratária à mudança, o oprimido escolhe a abstenção ao conflito. Porém, escrevemos aqui para incentivar a consciência dessa incoerência, tanto por partes dos privilegiados por esta dinâmica (sejam conscientes ou inconscientes) e as/os prejudicadas/os (sejam estóicas, resignadas pragmáticas ou revoltadas).


A história documentada das subculturas mostra com o em muitas subculturas a mulher era apagada da representação social ou tinha uma imagem acessória ou de objeto. Não é preciso nem lembrar que se é assim contra as mulheres, o machismo estrutural busca rebaixar tudo caracterizado fora do padrão tradicional heteronormativo. O que se associa muitas vezes a outros preconceitos.


Como anteriormente, no underground, a transmissão de capital cultural se dava por uma linha masculina e por transmissão pessoal, e, principalmente, por um discurso masculinista, esse sistema de poder e capital cultural se mantinha.


Agora as coisas começam a mudar, mas ainda há muito a ser feito e analisado, e muitos discursos conservadores e reacionários continuam sendo reproduzidos de forma alienada como “características tradicionais do underground”. Na verdade, são características apenas do passado. Precisamos desconstruir esses discursos alienados entre as subculturas alternativas. E desconstruir tanto a hierarquia de divisão de papeis de gênero e capital cultural DENTRO de CADA subcultura, mas TAMBÉM a hierarquia estabelecida ENTRE as subculturas alternativas baseadas na reprodução de conceitos de “aceitabilidade” e “normalidade” da sociedade hegemônica.


As duas questões são complementares.

H. A. Kipper, 2020/2021


Bibliografia: Goth Culture: Gender, Sexuality and Style – DUNJA BRILL (2008)

Goth: Identity, Style and Subculture - PAUL HODKINSON (2002)

Girls and Subcultures – ANGELA McROBBIE e JENNY GARBER (1977) em The Subcultures Reader- Editado por Ken Gelder (1997)

Sex Revolts: Gender, Rebellion and Rock'N'Roll – JOY PRESS e SIMON REYNOLDS (1996) <