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COLAPSO DO CAPITAL SUBCULTURAL  COMO INSTRUMENTO DE PODER

January 11, 2019

9. COLAPSO DO CAPITAL SUBCULTURAL  COMO INSTRUMENTO DE PODER

 

 

Este texto é um capítulo do livro "HAPPY HOUSE IN A BLACK PLANET: VOLUME 2" (2018) de H. A. Kipper, você pode baixar o pdf completo deste e outros livros AQUI)

 

Na segunda metade dos anos 1990 Sara Thornton popularizou o termo “capital subcultural”, inspirando-se no conceito de “Capital Cultural” como usado por Pierre Bordieu. O capital cultural seria o status que individuo adquire em seu grupo social e cultura por possuir ou consumir certos discursos, gostos, conhecimentos e produtos culturais. O capital cultural não é necessariamente ligado ao capital econômico, podendo aparecer tanto em conjunto quanto em separado deste.

 

O conceito de capital cultural como desligado do capital econômico fica claro no exemplo de “potlatch” citado por Levi Strauss, em que dois grupos autóctones competem por quem destrói mais recursos em uma celebração, sendo o vencedor aquele que mostra poder de  destruir mais recursos. Vemos um reflexo disso no costume ocidental urbano de esbanjar e ostentar. Porém o objeto de ostentação pode não ser caro, mas apenas raro ou secreto, igualmente para poucos. Assim elites underground, subculturas alternativas e grupos culturais excluídos podem estabelecer dinâmicas de poder internas e elitismos mesmo no limite da pobreza e são dinâmicas estruturalmente semelhantes a quem usa recursos econômicos para isso.

 

Assim, a raridade de um conhecimento, a edição limitada de um vinil ou de um fanzine podiam funcionar como elemento de formação de capital cultural ou subcultural excludente. Não só os objetos em si, mas a forma e circulação dos objetos entre as pessoas importava, devido a sua escala limitada. Assim, algo caro como um exemplar uma tiragem limitada de um vinil podia ter o mesmo poder de conferir status que algo grátis ou quase como um zine xerocado. A função é a mesma, não importa o preço do objeto, mas sua raridade e forma de circulação e troca.

 

O objetivo do capital cultural é sempre gerar distinção dentro de um grupo social ou estabelecer um círculo de elite cultural em que só quem tem o capital correto é valorizado. Um item de capital cultural pode perder valor se grande quantidade de pessoas tem acesso a ele. Nesse caso, o grupo de distinção ou elite, automaticamente, estabelecerá um novo item de valor cultural que seja mais inacessível. Ou nova rede social que deve ser usada, ou nova marca ou banda que se tornou “in” ou “diferencial” naquele momento e círculo.

 

Nesse sentido, não importam as características do item cultural e sim as características e quantidades de quem os consome. Tanto samba, rock quanto hip hop foram considerados como música de gueto um dia e nessa época socialmente criminalizados. Com o tempo, como classes sociais mais ricas passaram a consumir estes estilos musicais, eles foram validados socialmente como formas artísticas aceitáveis. O mesmo aconteceu com a Literatura Gótica no final do século XVIII, que passou posteriormente a ser considerada mais aceitável. Essa dinâmica nunca termina. 

 

Os métodos e meios de valoração cultural podem ser os mais diversos. Eugênio Trivinho apontou recentemente como a aceleração da atualização tecnológica serve como novo vetor de exclusão. Podemos aplicar esse conceito ao princípio de capital subcultural.  Sempre que uma rede social ou mídia se torna acessível de muitos, ela passa a ser desvalorizada. E um novo reduto produtor de capital cultural é buscado. Assim, a própria escolha de plataformas, mídias ou certos equipamentos pode servir de meio para o elitismo, e este pode ser tanto baseado em valor econômico quanto em um conhecimento especial (sem custo econômico).

 

Acesso geográfico também é um meio tradicional de seleção social. Baladas de elite econômica historicamente evitam áreas em que o transporte público é fácil. Assim vemos a localização de baladas de elite sempre “fugindo” da expansão dos transportes públicos. O acesso ser possível só de carro já determina uma seleção social. Recentemente em São Paulo se popularizaram festas em condomínios fechados. 


Entretanto, a seleção pode depender de outros fatores. Lembremos que Sarah Thornton escreveu inicialmente sobre capital subcultural em meados dos anos 1990, ou seja, refere-se a uma realidade subcultural ainda não alterada radicalmente pela internet. Veremos que nos últimos 20 anos esse capital sofreu um grande abalo na sua capacidade de exercer poder e criar distinção, devido ao surgimento de várias gerações que têm uma mentalidade de compartilhamento e não de seleção, acúmulo e exclusão. O capital subcultural ainda age, mas suas dinâmicas mudaram.

 

A internet implodiu todas as dinâmicas sociais. Primeiro, as subculturas deixam de ser fenômenos locais e o conhecimento passa a ser acessível a muita gente sem necessidade de mediação pessoal. Assim, grandes quantidades de pessoas podem compartilhar grande quantidade de informação, culturalmente coerentes, sem estabelecer relações de seleção ou exclusão. 

 

A exclusão por geografia ou contato pessoal era a natureza da realidade social do século XX (como comentamos no texto sobre as formas de acesso a conhecimento no século passado).

 

Porém, se esse modelo subcultural da era pré internet que servia como proteção e resistência a um tipo de mídia e capitalismo que não existem mais for aplicado a realidade atual, gera automaticamente um choque que será percebido como elitismo e exclusão, devido aos valores e dinâmicas do passado serem representações daquela realidade do passado. 

 

A informação, atualmente, é acessada de outras formas e a apologia da presencialidade e conceitos de underground seletivo automaticamente são considerados como absurdos excludentes para quem nasceu a partir de 1990. Hoje o repertório cultural valorizado em uma subcultura não tem mais o poder de capital de exclusão e poder dentro de uma subcultura, mas serve para diferenciar as subculturas da cultura hegemônica. 

 

DEMOCRATIZAÇÃO DO CAPITAL CULTURAL

 

As subculturas alternativas podem ser divididas em AI (Antes da Internet) e DI (Depois da Internet). Não nos referimos apenas as subculturas surgidas na internet, mas as que já existiam antes e perduraram em novas formas.
A internet não criou apenas um mundo paralelo separado do mundo “real”. Não se trata de uma oposição real x virtual. A internet mudou os valores, contextos sociais e relações de poder culturais no mundo “real”. As mesmas funções são realizadas de outras formas.

 

O capital subcultural continua a existir, mas na era pós internet ele perdeu seu poder de exclusão e controle subculturais. A dinâmica de poder e relações nas subculturas atuais mudou radicalmente em relação ao modelo do século passado. 

 

Boa parte das tensões atuais no interior das subculturas se deve ao conflito entre a tentativa de manter ideias e comportamentos do modelo antigo em uma realidade de dinâmicas sociais totalmente diversas.
 
Ou entre tentativas de manter o um modelo de subcultura apenas presencial em oposição a uma realidade glocal (ao mesmo tempo local e translocal). Mas antes de observar as novas dinâmicas da subculturas translocais na era pós-internet, vamos relembrar as dinâmicas das subculturas e do capital subcultural na era local e pré internet. 

 

Como já comentamos, as relações de poder e informação se davam na era pré internet apenas localmente e eram mediadas por indivíduos que possuíam a informação. As mídias existentes eram vistas como inimigo, pois as mídias de massa (TV, jornais, revistas de grande circulação e álbuns musicais populares) eram todas de alto custo e voltadas para informações não alternativas. 

 

Assim, havia um conceito, na época parcialmente correto, de que algo alternativo não poderia usar de mídias, sendo a mídia alternativa uma mídia presencial, pela fala ou produções de baixa tiragem, inicialmente mimeografadas e depois xerocadas, fitas K7 etc.

 

Estas mídias tinham a função de estreitar as relações entre um círculo de pessoas que já tinha contato e, pela própria dinâmica, não poderia ser muito grande. Apesar disso, paradoxalmente, alguns artistas alternativos cultuados foram lançados em grandes tiragens por grandes gravadoras, fenômeno que só se alterou posteriormente.

 

Assim, os poucos lançamentos musicais alternativos em vinis eram extremamente difíceis e caros de conseguir, daí o grande status atribuído a seus possuidores e aos DJs naquela época.


Também a informação dos grupos subculturais só podia ser transmitida presencialmente, o que no final gerava um sistema de copiar para ser aceito. Só com muito tempo e conversas se conseguia organizar mais informações de conjunto. 
 

Essas relações de acesso a informação só aconteciam em locais específicos, geralmente subculturas tinham seus territórios ou clubes específicos em cidades ou regiões específicas. Inicialmente não havia como saber o que acontecia em outras cidades. Por isso o território e o presencial era tão importante no século passado, e mídia e comércio eram vistos como inimigos dentro de uma perspectiva romântica. 
 

Porém com o advento da internet as coisas começaram a mudar. Ela se popularizou tarde no Brasil, mas em outros países já na segunda metade dos anos 1990 a internet ajudou a subcultura gótica e outras a terem um renascimento que mostrou toda sua força no começo do novo século. 
 

As pessoas descobriram que essa era uma mídia de custo quase zero que podia ser usada a favor da coesão e consistência cultural, promovendo informações alternativas sem pressões econômicas e, principalmente, ajudando-nos a encontrar outros que tinham os mesmos interesses alternativos que nós, pessoas que as vezes estavam em nossa própria cidade, as vezes em outro país. 
 

O nexo mudou da proximidade física e geográfica para a proximidade e coerência cultural. Também, subitamente, a informação ou produtos exclusivos que geravam capital cultural e status no século passado passaram a ser acessíveis a uma grande massa por custo baixo ou nulo. Isso gerou não só uma democratização da informação, mas também uma “ascensão subcultural” em termos de capital subcultural de grande quantidade de indivíduos de classe econômica mais baixa (especialmente no Brasil, onde mesmo um CD importado tinha preços inacessíveis para a maioria, especialmente até o final dos anos 1990).
 

O nível básico médio de informação musical subiu absurdamente na comparação entre 1993 x 2003 e mais ainda posteriormente. Se vinte e poucos anos atrás só poucos DJs tinham acesso (e capacidade econômica) de ter uma discografia completa, hoje qualquer iniciante ouve essa mesma discografia quase de graça no Spotify, Bandcamp ou por outros meios.

Isso gerou uma série de respostas incoerentes e irracionais em segmentos subculturais que buscavam manter o antigo modelo de controle e status.
 

Por exemplo, sempre que um item raro de alto valor subcultural se tornava público e compartilhado, grupos que buscavam manter o modelo de status e poder da era pré internet passavam a cultuar algum novo item mais raro ou ainda pouco conhecido pela novidade. Porém, como esses novos itens passaram a ser cada vez mais rapidamente compartilhados em massa, o valor de capital cultural desses itens para exercício de distinção, status e poder de exclusão se perdia quase que instantaneamente. 
 

Isso gerou uma corrida irracional pela busca de estilos cada vez mais obscuros ou raros, a ponto de se chegar a escolha de itens claramente “ruins” que seriam rejeitados mesmo que acessados. De qualquer forma, ficou claro até para os mais conservadores que era impossível defender qualquer tipo de “cidadela de status”, pois uma vez estabelecida, ela seria imediatamente varrida como um castelo de areia construído na orla marítima.
 

Se CD, vinis e outros itens materiais continuaram a existir hoje como importantes itens de colecionador, perderam há muito tempo o poder que tiveram no século passado de meios únicos de acesso à informação. 
 

O mesmo vale para os shows e festas. De qualquer forma, o discurso de posse e a posse de itens materiais ou presenciais não são mais um meio de informação, mas sim o final de um amplo processo seletivo de informação que começa online.
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Este texto é um capítulo do livro "HAPPY HOUSE IN A BLACK PLANET: VOLUME 2" (2018) de H. A. Kipper, você pode baixar o pdf completo deste e outros livros AQUI)


 

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