A QUEM INTERESSA A NÃO PROFISSIONALIZAÇÃO DA CENA GÓTICA BRASILEIRA?


CONFUSÃO DOS CONCEITOS DE ECONOMIA, COMÉRCIO, CAPITALISMO E FRAGMENTAÇÃO DA CULTURA: Antes entrar na discussão específica sobre a subcultura gótica e underground em geral, vou pedir a leitura do trecho e texto abaixo, que contextualiza o problema e mostra como algumas ideias consideradas "underground" ou "anti-capitalistas" são apenas uma reafirmação ingênua desse capitalismo na sua forma mais moderna. Precisamos separar oos conceitos de economia e comércio do de capitalismo pois...


A grande distorção da nossa época é que a esfera econômica deixou de "servir" como meio para existência de uma cultura integrada, e passou a ser a finalidade única de uma sociedade economificada, como explicou brilhantemente o filósofo e sociólogo Robert Kurz em seu artigo "A Estética da Modernização". Leia o artigo completo no link ou um trecho importante abaixo: "O processo de modernização não divide a sociedade de maneira uniforme ou com valores uniformes. Ao contrário, um determinado aspecto da reprodução humana – a assim chamada economia – é cindida de todos os demais aspectos e principalmente da vida. Da mesma forma que acontece com a arte ou com a religião, não se pode falar, no que diz respeito às civilizações agrárias antigas, de uma economia no sentido que damos hoje a esta palavra, embora o conceito nos venha dos Antigos. Mas na Grécia Antiga, como em todas as antigas civilizações pré-modernas, a "oikonomia", como economia doméstica integrada num contexto cultural, era um pressuposto material e um meio para as finalidades cultuais, e assim, sociais ou estéticas. Ao contrário, na modernidade a economia desenvolveu-se como um absurdo fim em si mesmo e como conteúdo central da sociedade: o dinheiro tornado capital que retorna a si mesmo, e assim um "sujeito automático" cego (Karl Marx), estando pressuposto fantasmagoricamente a todos os objetivos humanos e culturais.


Na medida em que essa "valorização do valor" (Karl Marx) ou maximização abstrata do ganho econômico empresarial, enquanto um fim em si em processo, se cinde da vida, começa a surgir uma "esfera funcional" separada e independente, como um corpo estranho na sociedade, que passa a ser central e dominadora. É a partir da existência deste setor cindido e ao mesmo tempo dominador que aparecem todos os outros aspectos restantes da reprodução social da economia capitalista como "subsistemas" separados, em que todos tem, entretanto, sem exceção um mero significado secundário, subordinados ao fim em si econômico pressuposto.


Sob a ditadura da economia feita indepedente, a atividade produtiva é transmutada em "trabalho" abstrato, um espaço funcional separado e estranho à vida, que passa a ser regulado só secundariamente e sob a coação também incontrolável dos "sistemas legais", através da esfera separada e particular da política. Tal "política", cindida da sociedade culturalmente integrada, tem de ser assim também desconhecida das civilizações pré-modernas, tanto quanto a "economia desvinculada" (Karl Polanyi) do fim em si capitalista e seu respectivo conceito positivo de "trabalho" abstrato, alheio a um contexto de vida integrado. A política moderna e as respectivas instituições do Estado e do Direito não podem ser comparadas com as instituições pré-modernas aparentemente equivalentes, que, como a "religião", não tinham o caráter de setores funcionais separados. Foi somente no processo de desintegração social moderna pela "economia desvinculada" que surgiram a política, o Estado e o direito, no sentido que lhes atribuímos hoje, como "subsistemas" complementares de segunda ordem e consequentemente, como meros servidores (ministros!) da economia capitalista tácita e a priori.


Se o conteúdo central e o objetivo da sociedade se tornam um fim em si mesmo cindido, então a vida necessariamente se rebaixa a um mero resto. A expressão da vida para além das cisões sistêmicas e das esferas funcionais complementares do mercado e do Estado, da economia e da política, da concorrência e do direito, é degradada ao refugo do "lazer"; e em algum lugar em relação a resto difuso está não somente a religião, mas também a arte e a cultura colocadas em esferas particulares. Todas as coisas que um dia foram decisivamente importantes para os homens, todas as questões existenciais, e assim todas as finalidades e formas de expressão estética ligadas a essas questões se transformaram nesse "resto" insignificante e os seus representantes têm que brigar pelas migalhas caídas da mesa do monstruoso fim-em-si. A situação da arte e da estética torna-se particularmente absurda. Embora toda aparição de vida em si contenha sempre um momento estético para o ser humano, o capitalismo negou esse fato elementar e cindiu a estética em um local separado, como aliás todos os outros momentos. O "trabalho" não é estético, a política não é estética, só a estética é estética. Como se a estética das coisas levasse uma existência própria, abstratificada e fantasmagórica, fora e ao lado das coisas; exatamente como a sociabilização dos produtos leva uma existência particular abstratificada ao lado dos produtos na forma abstrata do dinheiro tornado em fim em si e a lógica formal abstrata, como o "dinheiro do espírito" (Marx), passa ao lado e torna-se independente da lógica concreta dos contextos reais."


O PROBLEMA NA CENA GÓTICA BRASILEIRA (E DO CONCEITO DE UNDERGROUND)


A não profissionalização da cena gótica significa desrespeito a todos em todos os níveis: desrespeito a banda que vai tocar de graça em um palco precário com som ruim, queimando sua qualidade artística, e que não pode se dedicar com exclusividade a sua arte; desrespeito ao público que é enrolado pelo rótulo de “underground” e tem sua vida colocada em risco em eventos em instalações precárias ou sem segurança; desrespeito aos artesãos e lojas especializadas que também acabam fechando suas portas e não podem se dedicar a sua arte; desrespeito aos produtores musicais, editoras, selos musicais, lojas, grifes, grupos de dança, etc. que acabam fechando ou desistindo porque não há consumo de seus produtos apesar de todo trabalho de divulgação de novos artistas e informação... etc.

Por que, apesar da grande população interessada online ou saindo nos rolês, não temos no Brasil um micro mercado especializado como em outros países? Mais: porque há a rejeição da própria ideia de que possa haver, como se isso fosse uma traição da própria ideia de “alternativo” ou “underground”?


Por que tantas vezes pessoas que conseguem construir algo positivo na cena gótica brasileira (selos, bandas, festivais, eventos, editoras, lojas, etc) são consideradas geralmente “traidoras do movimento” ou “mercenárias”?


Para realizar coisas que acreditamos e amamos e que são fora do normal ou do mercado dominante, ou para levar arte e conhecimento alternativo até as pessoas, existem custos. Nada surge pronto, tudo é resultado de custos e muito trabalho. Já comentamos sobre as diferenças de uma microeconomia subcultural neste texto, em oposição a uma economia focada apenas no consumo e descarte.

Sem dúvida seria criticável fazer algo “só por dinheiro” em uma subcultura alternativa, mas quem faz algo por amor tem custos da mesma forma (demanda tempo, trabalho e recursos). Culturas dependem da existência de uma economia: apenas esta economia deve servir a cultura como meio, não como um fim único em si mesma. Aparentemente também existe uma negação do comércio e culpa romântica ou cristã pelo lucro. De onde vem isso? Parece ser uma ideia distorcida do conceito de underground misturada com mito do herói puro romântico que morre pobre e incompreendido, o que prova que ele é realmente bom, afinal quanto mais incompreendido, mais artista... essa ideia só é possível no contexto em que a "arte" e "cultura" já foram totalmente cindida no contexto do capitalismo do século XVIII e XIX.


Essa ideia poderia ser válida no século XIX ou início do século XX, mas hoje não faz nenhum sentido.


Porém - como o texto de Robert Kurz que citamos acima mostra bem - este "anti-capitalismo" ingênuo na verdade naturaliza (reifica) e reforça o capitalismo na sua pior forma, ao transformar comércio e economia em sinônimo de capitalismo, o que é um grande equívoco: tivemos e temos economias não-capitalistas, economias não-monetárias, de troca, economias socialistas ou de subsistência, etc. Economia (oi-konomia) significa "administração da casa", administração do recursos.

Mas em outros países, mesmo cenas punks, hardcore ou outras extremamente alternativas começaram no sistema do it yourself foram crescendo e profissionalizando os colaboradores que trabalhavam para que aquele conteúdo cultural alternativo chegasse ao maior número de pessoas com qualidade e sem concessões, e os artistas pudessem realizar seus conceitos, e, eventualmente, até viver e se dedicar com exclusividade a sua arte. Essa profissionalização exige dedicação exclusiva, constituição de empresa e pagamento de salários para quem colabora e trabalha. Evoluiram para o “do it together” e/ou empresarial com foco no alternativo.

Aqui no Brasil estamos longe das formas mais rudimentares de fazer isso. Temos dois selos cujo único funcionário é seu dono. Não conheço nenhuma banda, produtor de eventos, editor ou DJ que viva exclusivamente do seu trabalho. Não temos mais nenhuma loja especializada em CDs gothic/darkwave. Restam poucas lojas de vestuário abertas, e algumas online que servem várias cenas.

Algumas tentativas de grandes festivais feitas no Brasil não tiveram apoio de grande parte do público. Outras se esforçam para conseguir pagar seus custos e continuar a existir.


Aparentemente uma certa ideologia baseada em uma distorção dos conceitos de arcaicos “underground” e conceitos ingênuos ou superficiais de anti-capitalismo cria um caldo em que o comércio é coisa do demônio e tudo deve ser de graça, muito barato e precário. Ao mesmo tempo, as mesmas pessoas gastam muito dinheiro em consumo relacionado a outras coisas, mas não na cena gótica, ou subsidiam outras cenas.

Qual o sentido disso?

Pode ser simples ingenuidade ou, como já comentamos, como pode estar relacionada a toda uma ideologia de geração de status para um modelo de cena reduzido a poucas pessoas, aqui: 10 MITOS QUE PREJUDICAM A CENA GÓTICA BRASILEIRA

Não há muito mais do que dizer: essa ideia distorcida de underground é um dinossauro do século passado, que aplicada a cena gótica no século XXI continua a sabotar nosso desenvolvimento através de preconceitos e dinâmicas que só podem ser vistas como elitistas ou sectárias. LEIA QUESTÕES RELACIONADAS: ZOO ALTERNATIVO, OITENTISMO E O APAGAMENTO DO GÓTICO NO BRASIL CONSUMO, ESTÉTICA E POLÍTICA NAS SUBCULTURAS


Mesmo que algumas pessoas reproduzam essa ideologia com boas intenções, o estrago é o mesmo. Temos pelo menos 10 mitos para combater.

E velhas ideias. H. A. Kipper, 2018, atualizado em 2021