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7. O TEMPO & O RITMO NA ECONOMIA SUBCULTURAL

May 13, 2018

 
7. O TEMPO & O RITMO NA ECONOMIA SUBCULTURAL 

(páginas 117 a 123 do livro "A Happy House in a Black Planet 2", você pode baixar o livro completo AQUI)
 
“A velocidade é a velhice do mundo... carregados por sua violência, nós não vamos a lugar algum, nós nos contentamos de partir e nos separar do vivo em proveito do vazio da rapidez” (Paulo Virilo, 1977, Vitesse et Politique)

 

A ideia de underground foi desenvolvida no século passado como resistência ou alternativa a outro modelo de sociedade. Sua transposição para nosso século traz inúmeras inadequações, pois as relações sociais são diferentes hoje. 
 

Mas outro nó dessa questão é a relação entre arte e economia. A forma de mercado dominante do mundo hoje é o consumismo de massa e descarte, em que as pessoas consomem as atualizações, não mais produtos. Isso exige uma aceleração da realidade. O mercado atual incorporou a ideia de mudança dentro de seu modelo conservador e, pela primeira vez na história, a ideia de mudança constante serve ao status quo.
 

O florescimento de subculturas desde a popularização da internet se deve ao fato desta ter permitido uma mídia quase gratuita e uma forma de pessoas com interesses culturais semelhantes se encontrarem e se reforçarem mutuamente contra a pressão da cultura hegemônica global por homogeneização, que busca nos convencer que não devemos nos rotular e não ter identidades para sermos um consumidor adequado ao modelo acelerante de consumismo e descarte. 
 

Assim, a velocidade e a mudança compulsória são hoje a essência da homogenização cultural global: ela só pode existir em uma sociedade individualista, mas sem individuação, ou seja, de egoísmo sem identidade. Nessa realidade o indivíduo é obrigado a aceitar se tornar qualquer coisa para ser aceito em um mercado de trabalho e social muito mais violento do que na segunda metade do século XX.  
 

Esse é um modelo socioeconômico muito diferentes daquele que as primeiras subculturas encontraram: no passado, o modelo econômico era baseado em identidades fixas e imutáveis (tanto que mudança, no passado, era sinal de rebeldia, hoje é algo exigido nos currículos pessoais pelas empresas). 

MICRO MÍDIA E MICRO COMÉRCIO A SERVIÇO DAS SUBCULTURAS:

 

A internet também permitiu um desenvolvimento de um microcomércio subcultural, com padrões e ritmo diferentes das empresas reguladas pelo modelo de consumo/descarte. 
 

Essa microeconomia subcultural se parece mais com a economia das antigas culturas integradas, em que as trocas econômicas eram apenas uma esfera que servia, como as outras esferas de conhecimento (artes, mitologia, educação, trabalho, esporte, ciências etc), aos valores e conceitos daqueles grupos sociais. Ao contrário do que acontece hoje na cultura global hegemônica, em que o mercado é a esfera central de valor, que esvaziou e transformou todas as demais de sentido/valor, reduzindo-as a produtos sem sentido e descartáveis. Assim, a resistência das economias subculturais está exatamente em:
 

A)    Ter um ritmo de atualização orgânico dos produtos, ou seja, suas mudanças são evoluções naturais dos estilos e conceitos, sem pressão por trocas periódicas por algo “totalmente novo” como acontece no mercado de consumo/descarte;
 

B)    Ter coerência interna com valores e visões de mundo (homologia) da subcultura em questão, diferente da “cultura” global dominante, em que o valor central é um valor abstrato, o valor econômico, logo permite qualquer incoerência.
 

No modelo hegemônico de cultura de consumo/descarte, um produto é um item isolado de quaisquer relações de significação com outras esferas de conhecimento ou identidade pessoal mais permanente, tornando-se um avatar vazio de um conceito, logo facilmente descartável, pois insatisfatório. Permite que nova moda seja inciada a cada seis meses ou periodicamente. 
 

Já nas subculturas modernas, o desenvolvimento de micromídias e microcomércio subculturais permitem exatamente que subculturas alternativas floresçam como espaços culturais independentes (Hodkinson, 2002) e não sejam dissolvidas no modelo fluido da economia hegemônica atual, de consumo e descarte acelerado. A manutenção de espaços de diversidade cultural coerentes e estáveis depende disso. 

O consumo subcultural tende a ser mais lento na atualização e homológico. Não há mudança de estilo a cada estação. Não é a cultura servindo a produção de valor econômico abstrato, mas um sistema microeconômico servindo a sobrevivência de uma subcultura.

 

Isso entra em certo conflito não só com o modelo de economia de consumo/descarte atual, mas também com o conceito de underground do século passado. No século passado, a ideia de underground era geograficamente localizada, anticomercial e antimídia, focada em grupos locais e pequenos de pessoas, com acesso e troca de informações locais e personalizadas. Era um modelo romântico, adequado a resistência a um modelo de capitalismo global mais lento e, por vezes, mais localizado e com alguns valores morais. 
 

Esse modelo de underground sobrevive apenas como relíquia ou revival, porém seu conceito, aplicado ao século XXI, pode prejudicar seriamente a necessidade de resistência subcultural a formas de relações sociais e culturais muito mais aceleradas e despersonalizantes do que a cultura dominante do século passado.
 

CONSUMO SUBCULTURAL INTEGRADO X CONSUMO FRAGMENTADO E DESCARTÁVEL:
 

Já uma multiplicidade de redes subculturais translocais (global) pode incluir uma parcela significativa de população. Não há mais a necessidade de subculturas serem grupos com pequena população em um local determinado, pois hoje podem estar conectadas por redes de comunicação e mídia (via internet) que não impõe seus padrões de gosto e custo econômico. A internet não é neutra, mas pode ser usada de forma muito mais independente do que as mídias do século passado.
 

Contudo, isso não é apenas diversificação de consumo? A questão é importante: o que diferencia uma vivência subcultural não é apenas “o quê” você está consumindo, mas sua relação de integração homológica e a significação dos objetos. Uma pessoa pode consumir um CD e isto não significar nada para ela além de “mais um produto música” dentro de “seu gosto musical fluido”, provavelmente descartável. 
 

Por outro lado, outra pessoa pode consumir aquele CD como parte de seu sistema de visão de mundo da subcultura X ou Y. Provavelmente neste segundo caso o produto não vai ser tão facilmente descartado, porque significa algo mais para o indivíduo. 
 

Uma diferenciação do consumo subcultural está exatamente nesta lentidão e significação do padrão de consumo, paralela e complementar aos sistemas de micromídia e microcomércio subculturais que permitem que as subculturas permaneçam coerentes conceitualmente ao mesmo tempo em que integram uma população maior que não é limitada nem geograficamente nem em quantidade. 
 

Assim, na realidade do século XXI, o modelo de underground popularizado pelas subculturas do século passado vai parecer naturalmente elitista se comparado ao modelo subcultural translocal e inclusivo do século XXI. Mas apesar do romantismo envolvido no saudosismo de um modelo do passado, é preciso entender como o modelo de underground do século passado prejudica a capacidade de resistência das subculturas contra um capitalismo global que hoje é muito mais veloz, violento e brutal.
 

Assim, a questão não é demonizar o consumo, mas identificar que tipo de relação de consumo estamos estabelecendo. As empresas que estamos apoiando tem um compromisso com coerência subcultural? Respeitam o público específico, artesãos e apoiam outras esferas subculturais? 
 

CUSTOMIZAÇÃO E ANTROPOFAGIA CULTURAL:
 

Por outro lado, temos uma tradição na cena gótica de incorporar e customizar produtos não específicos. Então, em última análise, cabe ao indivíduo fazer sua seleção, lembrando que ao apoiar redes comerciais subculturais (artesãos, artistas, lojas, selos musicais, editoras, eventos, shows etc) está fomentando e ajudando a subcultura X ou Y a sobreviver, a resistir a absorção, assimilação e desaparecimento em uma cultura hegemônica global baseada na fragmentação, fluidez e descartabilidade (de produtos e pessoas). 
 

A cultura hegemônica periodicamente oferecerá produtos fragmentados inspirados em uma ou outra subcultura, para logo substituir por qualquer outra coisa. Isso não nos ameaça nem ajuda, pois não significa que a cultura global está mais tolerante a diversidade, apenas que precisa simular e apresentar “novas novidades” a um ritmo cada vez mais acelerado de troca e descarte.
 

Porém, indivíduos que se interessam por estética gótica ou alternativa fragmentada em alguma moda mainstream passageira podem vir a se interessar realmente por outros aspectos e se identificar com alguma subcultura de forma mais consistente, saindo assim do modelo de modas indefinidas e substituíveis da cultura dominante. 
 

Provavelmente, a maioria dos góticos atuais deve ter começado a se interessar por algum elemento solto e fragmentário que identificou em alguma mídia mais massificada, buscando depois a rede de mídia subcultural onde encontrou informações coerentes e duradouras. 
 

Precisamos entender que esse é um processo normal de entrada em subculturas hoje, pois a música e estética gótica não são mais moda mainstream nem estão na mídia de massa como nos anos 1980. Ao mesmo tempo, o acesso não é mais regulado presencialmente, sendo que temos boa parte de nossa experiência subcultural online e no mais das vezes, individual e isoladamente. Hoje, quando partimos para vivências presenciais e locais, geralmente já trazemos uma grande bagagem. 
 

Como comentamos no texto sobre formas de acesso no underground, hoje fazemos a seleção e coisas novas online, e partimos para experiências presenciais somente daquilo que já sabemos que gostamos. É utópico e deletério esperar que alguém atualmente tenha uma experiência de acesso de informação como nos anos 1980, pois as realidades sociais e de acesso a informação são muito diferentes.
 

ASSEMBLAGE, BRICOLAGE, DIY e DIT:
 

Após  a segunda guerra, no final dos anos 50 e começo dos 60 o termo “faça-você-mesmo” (Do it Yourself)  entra na linguagem popular. Os Beatnicks e depois Hippies popularizaram a poesia espontânea, ready-mades e música improvisada. Na música, performances e outras artes, o movimento Fluxus definiu uma nova forma de fazer arte:  
 

Mais tarde, nos anos 1970 e 80 o Punk e outras subculturas também resignificam o DIY, cada uma no seu contexto, desenvolvendo-o msmo até uma forma de empreendimento cultural focado na independência artística. Mais recentemente surgiu o conceito de DIT (Do It Together, ou “faça junto”). Nos últimos 20 anos, após o surgimento da internet e de diversas formas de crowdfunding e financiamento coletivo, vimos artistas e criadores dos segmentos mais pulverizados e alternativos conseguirem viabilizar suas produções e levar seus conteúdos até as pessoas em escalas e quantidades que seriam inviáveis até o final do século XX. 
 

Hoje a resistência não se dá mais apenas no modo de produção, mas na velocidade, integração e seleção pessoal e no próprio uso de tecnologia, redes de comunicação e mercado para uma finalidade que é culturalmente motivada.
 

A questão é: você usará todos os recursos sociais tecnológicos atuais para viabilizar uma produção cultural que faz sentido para você e seu grupo social, no seu ritmo pessoal e interno, ou usará tudo isso para se integrar de forma submissa em uma cultura global de velocidade, consumo e descarte (tanto de produtos, pessoas quanto de profissionais)? A quantidade e forma técnica da reprodução não é determinate neste novo contexto histórico, importando muito mais os conteúdos e formas de troca. 
 

Os meios ainda são parte da mensagem, mas novos meios mais livres de pressão e custo não determinam relações de poder econômico específicas.
 

SUBCULTURAS: RESISTÊNCIA CONTRA A “CULTURA” DA “NÃO-CULTURA” :
 

Dessa forma, as subculturas translocais globais são uma resposta e resistência a uma cultura hegemônica igualmente global, mas com características opostas: fragmentariedade, velocidade, consumo e descarte, repúdio a identidades e a sistemas culturais significativos.
 

Subculturas, por sua vez, tendem a construir sistemas de integração parciais ou totais entre as esferas de conhecimento (homologia simbólica), seu ritmo de atualização é orgânico, mais lento e internamente motivado, e suas redes de micromídia e microcomércio servem aos valores e conceitos da subcultura em questão. 


CONCLUSÃO SOBRE MÍDIA, ECONOMIA E RITMO SUBCULTURAL:
 

Os espaços de identidade subcultural são uma forma positiva de manutenção da diversidade e liberdade individual. A manutenção social de identidades públicas e  classificação pessoal é uma necessidade social (pública) de resistência para garantir nossa liberdade ontológica (essa sim, sempre autoquestionante) contra uma homogenização identitária global realizada pela aceleração da mudança, consumo e descarte. As subculturas têm uma economia integrada e um mercado a serviço dos valores de sua subcultura, como nas sociedades integradas do passado.
 

Nas subculturas o processo de evolução e mudança é internamente motivado, tendo um ritmo não previsível, diferente da mudança externa e artificialmente motivada do mercado de consumo e descarte globalmente dominante hoje, que precisa forçar mudanças ou atualizações a cada seis ou 12 meses para forçar o descarte. 
 

Além disso, as mudanças no mercado de descarte podem não seguir lógica alguma, especialmente na moda e na música, mudando de um conceito para outro sem nenhuma ligação. Isso só é possível, pois no mercado de consumo e descarte as esferas de conhecimento são fragmentadas, um CD, roupa ou sapato não tem nada a ver com qualquer outra coisa ou significado, podendo ser tomado ou descartado isoladamente, sem comprometimento ou identificação significativa.
 

Assim, diferenças estruturais da economia subcultural:
 

•    O mercado subcultural é motivado interna e organicamente, é mais lento na sua evolução e mudança;
 

•    Os objetos de consumo (roupas, CDs, calçados, livros, shows, maquiagens etc) formam um sistema e se referem homologicamente aos mesmos conceitos, como nas culturas integradas;
 

•    Não há “estações” periódicas em que novos produtos são lançados, ou atualizações necessárias têm que ser adquiridas;
 

•    Artistas, artesãos e empresas tem maior identificação e um compromisso de longo prazo com o estilo e a subcultura em questão. 



Para aprofundar essas questões, leia também os demais capítulos sobre subculturas no século XXI no VOL. 2 de Happy House in a Black Planet, você pode baixar gratuitamente os 2 livros aqui.

H. A. Kipper, 2018

 

 

 

“Temos nosso próprio tempo”, como diz a canção do Legião Urbana, e esse tempo é motivado internamente, tem duração de vida (Bergson) e é geralmente mais lento. 
 

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