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CULTURA DE MODA - texto de Sana, do blog Moda de Subculturas
Tenho ouvido muito por aí que brasileiro não tem cultura de moda. Eu concordo que uma boa parcela da população não tem mesmo.
Mas entender o que é cultura de moda é simples.
Sabe quando falamos “fulano não tem cultura, é um ignorante” nos referindo à uma pessoa mais humilde ou não letrada, não estudada ou ignorante das coisas do mundo? Cultura de moda é mais ou menos isso, mas óbvio, relacionado à moda. Quem não tem cultura de moda, é aquele tipo de pessoa que não entende que a moda é tão importante quanto ela imagina, que a moda é história, característica de um povo, religião, identificação de grupos, que a moda é um dos maiores e mais poderosos comércios do mundo.
Há uma falsa idéia disseminada, que a moda é sinônimo de futilidade. Essas pessoas enxergam a roupa apenas como aparência, não percebem que a roupa é um reflexo do que acontece ao nosso redor.
A moda faz parte da cultura de um povo assim como a cultura também se mostra através da moda. Observem a cultura indiana e seus milhares de adereços, o uso da burca e véus nos países árabes, os índios que usam peles, penas ou pinturas corporais como forma de vestimenta e identificação de suas tribo, os kimonos japoneses e tantas outras vestimentas características mundo afora.
Lembram quando as mulheres eram escravas do corset? Uma peça que imobilizava as moças, porque afinal elas eram apenas enfeites de seus maridos e não precisavam se locomover pra lá e pra cá, não trabalhavam, não cuidavam de seus filhos e mal respiravam.
Com as grandes guerras levando os homens para os campos de batalha as mulheres se viram obrigadas a trabalhar para sobreviver e os trajes tiveram que se adaptar. A partir do momento que a mulher passou a trabalhar, a se livrar da dependência de seus homens o corset foi abandonado, as mulheres passaram a usar calças e saias calças para ir de bicicleta até o trabalho.
Observem o vestuário pós guerra: anos 10 (a primeira guerra foi em 1914), reparem como as roupas da segunda metade dessa década tinha menos tecidos, comparado há alguns anos antes (era vitoriana), com o fim da guerra, os anos 20 chegaram e trouxeram revoluções modernistas, mulheres encurtando vestidos e cortando cabelos curtíssimos.
Nos anos 40, a guerra volta, os homens partem para o campo de batalha novamente e as mulheres vão para as fábricas. Enquanto as guerras acontecem, as fábricas quase não fazem tecidos, que se tornam caros e raros, as roupas se tornam mais simples e de cores sombrias e pesadas, cinza, pretos, azul marinho, são cores que predominam. Quando guerras acabam, as fábricas voltam a fazer tecidos, as roupas ficam alegres, coloridas , volumosas e de formas confortáveis.
Quando da entrada feminina no mercado de trabalho os traços andróginos foram muito valorizados. A mulher usou tailler nos anos 30, 40, e observem a mulher dos anos 80 com seus ternos e ombreiras imensas.
Nas épocas de escassez de comida as mulheres gordinhas eram as mais admiradas pois se eram gordinhas significava não serem miseráveis. Hoje em dia, com a abundância e desperdício de comida, as mais magras são o ideal de beleza, indicação de que, ao invés de ficar comendo sem parar, ela se cuida, vai a academia, clínicas de estética, come comida light, faz coisas que são mais caras e que quem é pobre não pode fazer.
Voltando ao tema das guerras, logo após o 11 de setembro de 2001, houve um revival da moda gótica – romântica - vitoriana, o que refletia o momento de tristeza e apreensão de como estava o mundo pós-terror.
E então, a situação melhorou um pouco e os anos românticos (anos 40/50) foram resgatados, a suavidade de tempos passados. Foram usadas muitas batas, saias amplas, vestidos de tecidos leves. Com a igualdade de sexos, o fim do cavalheirismo, as mulheres inconscientemente retornam à estas épocas onde a mulher era tratada com mais romantismo e delicadeza, vide como o revival dos anos 50 rendeu pa moda nestes últimos anos, a mulher está muito mais feminina do que 8 anos atrás!
Tudo isso são signos da moda, mostram como a moda reflete nossa cultura.
E é através de mudanças na moda que percebemos as mudanças do tempo, na história.
Assim, como a cultura, a moda é viva e está em constante mudança e desenvolvimento, não é fútil e nem supérflua, é apenas o espelho de como vivemos.
Aos brasileiros, falta ver a moda como algo importante na nossa sociedade.
Respeitar a moda como profissão séria e não pensamentos do tipo “eu sei costurar então também sou estilista” como se fosse possível uma pessoa apenas por entender de psicologia pudesse abrir seu próprio consultório. Moda não é só fazer um desenho, comprar um tecido, costurar e depois vender. Ser um estilista, um consultor de moda, um produtor de moda etc, é mais do que isso, os profissionais da moda aprendem a conhecer signos, aspectos sociológicos, históricos e assim fazem o seu trabalho. Precisamos estar sempre informados sobre o que acontece no mundo porque sim, tudo ainda vem de lá, dos países que “mandam” no nosso planeta que estão mais avançados que nós.
Mas uma dica que deixo é: precisamos ficar ligados no que acontece lá fora e trabalhar com o que temos aqui. Quando nos aceitarmos, teremos uma moda 100% nacional, completamente adaptadas à nossa cultura. Porque há 510 anos, tudo que fazemos aqui é cópia ou herança dos povos que nos colonizaram. Quando aceitarmos e descobrirmos nossa própria cara, aí, quem sabe, nossa cultura de moda é que seja imitada lá fora e não, nós que imitaremos a deles.
Este texto continua na próxima postagem, que falarei sobre a cultura de moda nas subculturas.