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SÉCULO XIX- PARTE I: OS ROMÂNTICOS- texto de Sana, do blog Moda de Subculturas
O século XIX exerce grande influência na moda da subcultura gótica e é referência de estilo também para a moda Gothic Lolita. Por isso decidi escrever um texto (divididos em 3 postagens) interessante pra quem gosta do período, tomei a liberdade de me extender até 1907, no século XX, onde imperou a moda Eduardiana.
No século XIX houve um revival da era medieval, esse revival foi chamada de Período Romântico. Após a metade daquele século, tomou posse a Rainha Victoria, na Inglaterra, que influenciou a moda da época. Neste século, houveram modas distintas mas contemporâneas: a moda romântica, seguida pela população em geral; a moda vitoriana que era a moda seguida pelos burgueses. No fim do século, deu-se início à moda da Belle Époque (1890-1911) que se extendeu até o século XX sendo contemporânea da moda Eduardiana (até 1907).
Então, prestem atenção quando falarem que o século XIX era moda vitoriana. Não! O século XIX teve ao menos 4 modas distintas e uma delas era a vitoriana.
Românticos do séc. XIX (Revival do Gótico Medieval) 1820-1840
França e Inglaterra eram os países que ditavam moda na Europa. Até 1814, no neo-clacissismo, as mulheres usavam pouquíssimas roupas, algo parecido com uma camisola longa, leve e com cintura império (abaixo do peito). Gradativamente a saia, adquiriu novo formato mais aberto na barra até 1820, quando se deu origem o Período Romântico.
O movimento romântico tem esse nome porque arte, literatura e música do período focavam em emoções e sentimentos com o início das novelas e dos poetas românticos. Precisamos lembrar que a literatura era a televisão da época e exercia grande influência. O início dessa onda romântica foi devido à uma apresentação da peça de Alexandre Dumas “Henry III e as cour”. Nasceu aí uma febre historicista na população, um revival medieval e subitamente o estilo Renascentista da Idade Média tornou-se moda. Em alguns meses Paris encheu-se de moças de saias compridas com caudas, corsets, mangas bufantes e de jovens cavaleiros vestidos de calças justas. Os homens usavam uma cabeleira e barbas dignas de reis.

As moças queriam parecer heroínas das histórias, usavam cabelos compridos que penteavam lisos e repartidos ao meio e cachos que caiam na testa ou na lateral do rosto. Os chapéus eram imensos. A mulher era delicada, frágil e decorativa. A cintura era minúscula e quase no lugar original (era um pouco mais alta), e os vestidos tinham estampas florais delicadas ou listras. Houve uma voga rápida de vestidos em xadrez escocês. Em 1825 a manga bufante, sustentada por barbatanas ou bolas de plumas, recebeu outra manga por cima, maior ainda, feita em gaze transparente. Depois de 1830 a saia ficou mais curta, mas ficou mais ampla.
Tudo era feito para proporcionar a mulher a aparência de ter saído de um mundo encantado, como de fantasias ou lendas. Os chapéus de abas largas erguiam sobre a cabeça como torres que subiam aos céus, como os chapéus de bruxa, que é como os chamamos hoje.
Lembrando que existiam trajes para o dia, para noite e para festa. Os vestidos de noite eram mais decotados, deixando ombros à mostra, mantos e leques eram fundamentais. De dia usavam gola rufo ou pelerine e muitas capas. O guarda sol era essencial para a mulher elegante, porém raramente aberto porque teria que ser imenso para cobrir os enormes chapéus, então eram carregados nas mãos.
Os rapazes queriam ser corsários, cavaleiros, cruzados. As moças sonhavam em ser donzelas, ladies ou rainhas. Deviam ser frágeis e distantes, já que a Idade Média era o tempo do amor de cortes e isso deveria ser relembrado.
O teatro e a literatura, se alimentavam de histórias de fantasmas, seres mitológicos e heróis. Sendo Lorde Byron, John Keats e sir Walter Scott alguns dos representantes desta época.
Era muito requintado corresponder-se com bilhetinhos escritos em francês arcaico, com palavras raras, expressões como: “Por Belzebú!! ” “Pelos chifres de Auroch” e referências à terra e inferno.
No mobiliário e na arquitetura, reproduções de castelos eram comuns, as janelas eram em arcos e com vitrais, tudo com muita influência da Idade Média, como uma fuga nostálgica à um passado ou a um universo imaginário.
Os rapazes da sociedade sonhavam em morar num apartamento escuro como uma cripta, com acústica de catedral. Todos queriam seu castelo.
Era preciso ser moreno, quase escuro, com pele azeitonada, mouresca, com o corpo seco e nervoso, o olhar selvagem porém apaixonado, parecer fatal, sombrio, maldito, esmagado sob o peso de um destino abominável, devorado pelas paixões e pelo remorso, desiludido. Byroniano ou mefistofélico, perverso, obcecado pelos poderes do mal e da noite.
A moda masculina dândi, exigia roupas justas, calças coladas à pele, tecidos lisos, cores primárias, golas altas de veludo, coletes curtos e quadrados. O dândi prezava pelo colarinho da camisa virado pra cima, ou grandes lenços, para ser quase impossível virar ou abaixar o pescoço dando ar de arrogância. Cartolas eram usadas em todas as horas, especialmente as em formato de lua crescente (finas no meio, grandes nas bordas) os cabelos eram curtos mas despenteados, usavam costeletas e bigodes e a bengala era indispensável dia ou noite. A cintura era afinada com ajuda de espartilhos.
Enquanto um dândi clássico exibia cabelos raros, o romântico tinha cabelos imensos e abundantes. Lavavam os cabelos com infusão de cassis para obter um tom Otelo. Raspavam os cabelos da testa para aparentar uma testa maior passando a idéia de terem pensamentos geniais e profundos. Depilavam as sobrancelhas para deixá-las arqueadas e ferozes, aparavam os bigodes revirados em croque e usavam barba pontuda para obterem um ar satânico, como Mefistófeles.
Quanto às moças, queriam ser morenas ardentes, espanholas com tom de pele oriental ou, ao contrário, transparentes, diáfanas, com uma palidez cadavérica, de uma fragilidade ideal, com cintura de vespa, pescoço de cisne e grandes olhos desbotados, úmidos e ultramarinos. Ter saúde de ferro era vulgar, o ideal era uma “palidez interessante”.
Quando não possuiam estas qualidades bebiam litros de vinagre e comiam dúzias de limões para obter uma tez pálida e doentia. Espremiam as curvas em espartilhos e deixavam de comer, apenas beliscavam, prendiam suas bochechas com os dentes para cavá-las artificialmente. Nada era pior do que uma aparência bem alimentada (quem disse que anorexia é uma coisa recente? Apenas os motivos mudaram. As mórbidas românticas prezavam uma aparência cadavérica).
Era preciso ter aspecto cansado, desenganado, desiludido, como quem pertencia à outro mundo. Algumas vezes fumavam datura, que dava um leve efeito alucinógico que as deixava com olhar vago e fixidez mística. Acolhiam com alegria a tuberculose como doença agonizante super chic.
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Em 1830 o movimento começou a definhar, os primeiros romances de George Sand traziam as mulheres como cavaleiras e caçadoras anti- românticas e as moças passaram então a querer viver intensamente, novamente no presente, comiam, bebiam, fumavam e passaram a levar a vida com desenvoltura, usando e exibindo trajes e modos masculinos, surgia aí, as Garçonnières.
Em 1836, o romantismo já era passado, e a moda, começa a mudar, as mangas já não são tão amplas e as saias passam a ser mais compridas cobrindo o tornozelo. A mudança mais marcante foi o chapéu: um modelo amarrado firmemente ao queixo ao estilo boneca com cachinhos nas laterais dando impressão de recato. Para os homens, as cinturas apertadas e ombros almofadados foram abandonados, ainda se usava sobrecasaca e jaqueta e fraque durante a noite ou de dia. As camisas com babados desapareceram. A copa da cartola ficou menor, as calças ficaram bastante apertadas presas sob o pé. Os dandies passaram a ser raros, pois a moda agora não era se exibir e sim ter aparência distinta.
As mulheres de próperos homens de negócios deveriam ser perfeitas nas atividades domésticas e não fazer nada. Ociosidade era status social do marido, alem de que, as roupas eram super restritivas a qualquer movimento, espartilhos e o alto número de anáguas e o peso, fazia com que as mulheres se cansassem com muita facilidade.
As remanescentes românticas do meio do século, odiavam as suas contemporâneas, as burguesas vitorianas, de traseiro e quadris avantajados. O romantismo era uma revolta contra os hábitos burgueses.

Em moda, o uso excessivo de fitas e laços é uma característica extremamente feminina, e eles foram muito usados na era romântica. Alguns historiadores consideram a moda que começou em torno de 1825, o começo da pior era moderna das mulheres ocidentais, pois as roupas usadas traziam problemas graves de saúde. Corsets restringiam movimentos e debilitavam o funcionamento de órgãos internos (lembrando que os corsets eram usados desde que as meninas eram crianças!). As grandes mangas impediam movimentos assim como o peso de inúmeras anáguas nas saias, o peito exposto nos vestidos noturno expunham as mulheres ao frio, esse tipo de estática durou até o começo do século XX.

O romantismo fez nascer o conceito de adolescente. Pois até então ou se era criança, ou se era adulto. A adolescencia passou a ser vista como um período problemático e cheio de revolta contra o qual todo jovem deve passar. Os românticos eram, provavelmente, em sua maioria jovens adolescentes. É pelo romantismo que entendemos os movimentos de estilo que se estruturaram como movimentos de juventude e que hoje reconhecemos como tribos urbanas. E o romantismo teve em Baudelaire um dos herdeiros literários e atualmente, a subcultura gótica, é a maior fonte de interpretações do fenômeno da moda romântica.
