A Happy House in a Black Planet:
Introdução à Subcultura Gótica
19- "ARQUEOLOGIA" DOS USOS DO TERMO "GÓTICO".
Abaixo, vamos comentar um pouco as transformações de significado que o termo "Gótico" foi sofrendo ao longo dos séculos, até chegar ao século XX e ser usado como jargão pelos Góticos.
1- DO SÉCULO
V AO XIV:
Os povos que invadiram as diversas fronteiras do Império Romano, forçando
o bloqueio econômico da Europa e a economia Feudal, tinham várias
origens: vândalos, germanos, anglo-saxões, otomanos, ostrogodos,
francos, visigodos, mongóis. Mas essas invasões haviam acontecido
de seis até dez séculos antes da construção das
imensas catedrais verticais e luminosas da baixa idade média.
A cultura expressa na "ideologia" da arquitetura da baixa Idade Média era Escolástica, Católica e Teocêntrica, mas, estando na transição para o Renascimento, sua forma resultava também do emprego de técnicas resgatadas da antiguidade clássica e do oriente, somados a valores da urbanização e da burguesia comercial com seu poder emergente.
Logo, não há ligação direta e causal entre as "culturas bárbaras ou pagãs" e a arquitetura dessas catedrais católicas da baixa Idade Média que, mais tarde, seriam conhecidas como "Góticas", pois naquela época estas não eram chamadas de Góticas.
Quando foram construídas (séculos XII a XV) aquelas catedrais verticais, com amplos arcos ogivais, com grande quantidade de enormes janelas recobertas de vitrais multi-coloridos era chamadas de "obra-francesa", ou "arte francesa", expressando a maestria técnica do renascimento urbano no final da Idade Média nas terras francesas.
Foi muito tempo depois que os detratores da Idade Média resolveram achar um "bode expiatório" para a Idade Média, e escolheram os Godos (que eram os Bárbaros mais conhecidos pelos italianos renascentistas). No século XVI os Renascentistas também cunharam a expressão "idade das trevas", outra idéia preconceituosa para designar a Idade Média.
Afinal, segundo os Renascentistas, o berço "greco-romano" da Europa não poderia ter produzido um período de 1000 anos de tamanho "obscurantismo cultural e mau-gosto". Mas isso era parte da propaganda ideológica deles e depois dos Iluministas para vender seu peixe anti-eclesiástico e anti- teocentrista.
2- PRIMEIRA
METÁFORA:
Assim, o adjetivo "Gótico" foi pela primeira vez aplicado a
algo que não tinha ligação com os Godos.
Aqueles novos pensadores
e artistas rejeitavam a Idade Média, para, assim, desprezar a arquitetura
e toda cultura medieval teocêntrica contra a qual se insurgiam em defesa
da Razão da Ciência e do Humanismo. Após o século
XVI, o conceito de Idade Média como "idade das trevas" intelectual
foi difundido em oposição ao conceito de "luzes" e "esclarecimento"
do Renascimento e, depois, do Iluminismo. O Antropocentrismo vem substituir
o Teocentrismo e as doutrinas Escolástica Medieval e Católica.
3- VOLTANDO À BAIXA IDADE MÉDIA
Todavia este preconceito dos renascentistas era exagerado, pois essas "obras
francesas" (depois chamadas de "Góticas") só foram
possíveis graças a uma retomada do comércio, do desenvolvimento
técnico e urbano e do estudo da matemática clássica grega,
como a do matemático Euclides, tendo sido a geometria Euclidiana fundamental
para o seu desenvolvimento.
Assim, a cultura Greco-romana não desapareceu totalmente durante a Idade Média. Paradoxalmente, séculos antes, ao dominar militarmente a Grécia, o Império Romano havia sido "derrotado" culturalmente pela cultura Helênica (Grega). Depois, essa cultura Greco-Romana-Cristã dominou exatamente aos que derrubaram o Império Romano.
Então, essas catedrais Góticas da baixa Idade Média, banhadas de luz e cor de suas imensas janelas, eram o ponto de encontro da sociedade que se reurbanizava. Nelas, os burgueses realizavam assembléias civis e também eram usadas como bibliotecas.
Podemos considerá-las um momento de tensão e passagem do homem da sociedade teocêntrica para a sociedade antropocêntrica, transição que se completa gradualmente até o século XVII, com o progressivo crescimento dos valores e conceitos racionais e iluministas.
4- SÉCULO
XVIII: REAÇÕES AO SÉCULO DAS LUZES
Mas então como "Gótico" e as catedrais medievais chegaram
a ter um sentido "romanticamente obscuro" como conhecemos hoje?
O século XVIII foi o chamado "século das luzes", apogeu do pensamento Iluminista e Racionalista, e do "cogito ergo sum" de Descartes, que deram a tônica geral. Newton depois descreve as leis gerais da Física e o Mecanicismo se estabelece. O tempo passa a ser dividido em unidades iguais e vazias. A percepção de mundo como o conhecemos hoje é esboçada neste período.
Tanto que na segunda metade do século XVIII temos a explosão da primeira Revolução Industrial e das Revoluções sociais que derrubariam os primeiros absolutismos: a Independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa. Obviamente o Racionalismo e o Cientificismo geraram reações contra sua excessiva tentativa de "desmistificar", mensurar e controlar totalmente a realidade.
Como reação, já no final do século XVIII e início do XIX temos a origem do romance Gótico, com sua temática fantástica e misteriosa. (ex: O Castelo de Otranto de Horace Walpole, e Frankenstein de Mary Shelley).
Da mesma forma que o Romantismo, também era uma reação contra o Racionalismo e o Iluminismo. Foi chamado de Gótico por recriar elementos da Idade Média de forma idealizada, logo ocorre a mesma associação que ocorreu no Romantismo.
Na poesia Inglesa
da passagem do século XVIII e começo do XIX temos vates, místicos
e românticos: William Blake, Coleridge, Keats, Percy Shelley, Byron e
etc...
5- SÉCULO XIX, QUANDO AS "LUZES" BRUXULEIAM
No começo do século XIX, na França, a Revolução
Francesa e o Império Napoleônico "deram errado", frustrando
os projetos modernizadores e a "Razão". Neste contexto surgiu
a Moda Romântica, que buscava exatamente resgatar as raízes nacionais,
os sentimentos, paixões e mistérios. Por isso criavam uma versão
idealizada de seu passado, buscando as "glórias" da monarquia
francesa, da época da Idade Média e do "Gótico".
Aqui o termo "Gótico" já é considerado um adjetivo
comum para a Idade Média.
Uma boa comparação para entender esse processo foi o que se passou com os românticos brasileiros. Livros como Iracema, O Guarani, Ubirajara, O Gaúcho... na falta de uma idade média e cavaleiros, foram idealizados os índios e outros nativos, criando representações que não tinham muito a ver com a realidade destes. Da mesma forma a idealização Romântica de elementos da Idade Média associada ao conceito de Gótico (aqui já relacionado às catedrais) tem mais a ver com as necessidades estéticas e ideológicas da época do Romantismo do que com os fatos históricos da Idade Média e dos "Godos".
Mas esta "ficção" e romantização de uma época imaginária e fantástica foi o que embebeu a palavra "Gótico" de boa parte dos sentidos com os quais a recebemos. E a estes sentidos acrescentamos outros
6- NEO-GÓTICO
DO SÉCULO XIX: REVIVAL VITORIANO
Até o final do século XIX ainda temos um revival Neo-Gótico
ou "Vitorian Gothic" também na Inglaterra Vitoriana, notoriamente
na Arquitetura (Novas Casas do Parlamento, de 1837, o Big Ben e Tower Bridge
1866-94). Mas por que esse nome "neo-gótico"? Era um estilo
que se referia, no século XIX, a um suposto estilo Gótico original
que nem era, na sua época, chamado de Gótico. Também a
Rainha Vitória envergando luto (vestimentas pretas) por décadas
influenciou a moda da época (ela ficou viúva muito cedo e não
se casou novamente).
Assim, nova associação importante: os conceitos de "Vitoriano" e "Gótico" se contaminam e confundem em nosso imaginário e no repertório cultural que recebemos.
Como Frankenstein antes, no final do século XIX o tipo de romance "Gótico" se torna mais psicológico do que de terror material (ex: Mr.Jeckyl & Dr. Hide, O Homem Invisível, Drácula, o Retrato de Dorian Gray, etc). Os recursos da ciência e da razão são apresentados como fonte de horror e perigo, se usados sem critérios morais e/ou sem levar em conta o lado humano. Ao mesmo tempo a nobreza já é mostrada como decadente, inútil e ridícula.
A urbanização paralela à Industrialização do final do século XIX, produz um novo tipo de cidade em que as relações humanas se esvaziam e deterioram. Este novo tipo de "inferno" foi explorado em obras literárias por autores simbolistas como Baudelaire e Rimbaud.
O século XIX viu o florescimento das ciências, da tecnologia e da filosofia positivista, o Iluminismo degenera em uma Religião de Cientistas Racionalistas... até que tropeçam, novo século, em Freud e na Primeira Guerra mundial. Depois dela, o "horror" terá que tomar novas proporções
7- SÉCULO
XX: OS DÂNDIS ELÉTRICOS
Depois do Decadentismo "anti-social" e dândi de Baudelaire e
Oscar Wilde, depois de T.S Elliot e de Leopold Bloom (o não-Herói
e não-anti-herói "homem-feminino") de James Joyce, em
meio a Cabaret Culture de Brecht e Weil, do teatro da crueldade de Artaud e
do Manifesto Bauhaus de 1919 ... luz, câmera... ação!
O Cinema Expressionista, no século XX, vai se inspirar nos romances "NeoGóticos" do século XIX que satirizavam a vida racional ao mesmo tempo que usavam para isso figuras caricatas de uma aristocracia decadente, com condes ou lordes ridículos e "do mal" em seus castelos empobrecidos ou metrópoles obscuras.
O Expressionismo buscava retratar a realidade com as proporções sentidas, não apenas reproduzir a realidade: nisto não haveria arte alguma. Em 1919, o manifesto da escola Bauhaus busca estabelecer uma nova arte, na qual a criatividade seja devolvida ao trabalho, e a artisticidade, ao dia a dia. Os Surrealistas buscavam expressar os símbolos do Inconsciente livremente.
Os Cubistas pretendiam, por suas vez, mostrar uma imagem de vários pontos de vista e em vários tempos ao "mesmo tempo", rompendo com as noções de tempo-espaço criadas pela Ciência Newtoniana. Logo depois, Einstein atacaria a Ciência "por dentro" com a Teoria da Relatividade. Bergson também já havia feito sua desconstrução da Ilusão Mecanicista na Filosofia, voilá: século XX.
Freud, no começo do século XX, rompe definitivamente com o que ainda restava de Racionalismo propondo que o ser humano possuía instâncias não conscientes (conceito de Inconsciente) que determinavam suas ações e comportamentos. Posteriormente a Literatura e a Filosofia existencialistas vão abordar os dramas existenciais mais extremos do ser humano, abandonado em meio ao vazio sem bóias de salvação racionais ou morais, como nos romances "A Náusea" de Sartre e "O Estrangeiro" de Camus.
Após o Situacionismo
e o Existencialismo (1950 aprox.) e Pop-Art e Nouvelle-Vague (1960 em diante),
nos anos 1970 (Glam-Punk) e dos 1980 até hoje, tudo que citamos vai direta
ou indiretamente, sofrer uma nova apropriação e releitura. Por
exemplo: a apropriação de Frankenstein ou Drácula pode
tanto se dar através da releitura expressionista quanto por uma releitura
do romance do século XIX, ou ainda através da releitura POP, ou
tudo isso junto, adaptados à linguagem contemporânea e como símbolos
e metáforas de questões atuais.
8- 1970's : BOMBAS NUCLEARES, GLAM, PUNK , GOTHIC E NEW-ROMANTIC:
Nos anos 70, a "era de ouro econômica" e seu otimismo que perduravam
desde o pós-guerra encontram seu fim. O novo mundo da Guerra se aproxima
dos anos 80 ameaçado pela aniquilação nuclear a qualquer
momento, ao mesmo tempo que a situação econômica mundial
começa a se deteriorar. A terceira Guerra mundial parece eminente, e
um revival da República de Weimar pré-segunda Guerra mundial e
de seu expressionismo e "decadence" parece fazer todo o sentido. As
perspectivas são sombrias, até mesmo
"góticas".
Em 1970 já temos o Glam-Rock na Inglaterra e o Glam-Punk Nova Iorquino que desembocam, na Inglaterra, no Punk 77 e no Gótico. O nome Gótico é aplicado a este movimento no sentido que o adjetivo "Gothic" havia adquirido na língua inglesa durante todo este processo que descrevemos. No sentido de algo ligado ao "lado não racional" e não-positivista, imaginativo e que ousa mergulhar nas "trevas" da psique e da terrível "condição humana" mas também no "maravilhoso e misterioso".
Em 1972 o filme "Cabaret" (baseado na obra de Christopher Isherwood sobre o período da Alemanha anterior a Segunda Guerra Mundial) com Liza Minelli, acaba criando uma moda "retrô-glamour-niilista-cabaret" em Londres, que vai desembocar no Punk e no Gótico. Ao mesmo tempo (1969-1975) está rolando o Glam e o Punk USA e o que vai ser chamado de New Wave já engatinha. Tudo isso vai influenciar a cena proto-Gótica que surgirá a seguir.
O New-Romantic dos anos 1980 não tem a ver "diretamente" com o Romantismo dos movimentos literários e revivals anteriores, mas ele vai influenciar muito o Gótico em formação. Era um movimento que visava a criatividade e a busca da individualidade, com um grande enfoque no uso glamoroso das roupas e cabelos e claro, na dança. Os maiores ícones eram David Bowie e Duran Duran, sem esquecer Visage, Ultravox, Classix Noveaux, Depeche Mode e outros.
Isso tudo se dá no contexto da Guerra Fria e da continuidade da revolução Sexual, na qual os papéis sociais dos gêneros, fixos há séculos, são rompidos, questionados e satirizados.
9- POP 1980's:
UM MOMENTO CATALIZADOR
Em 1978 o Punk já dera lugar à New Wave, e parte da New Wave veste
preto, na roupa e na alma.
Em 1982/1983, temos uma catálise de elementos: no filme Hunger (Fome de Viver) David Bowie e Caterine Deneuve representam vampiros que caçam suas presas extamente em um clube "gótico/new-wave" no qual está acontecendo um show do...Bauhaus com Peter Murphy cantado "Bela Lugosi is Dead". Não por acaso a vampira Deneuve é uma "antiga" do Egito e ambos usam Ankhs (!) com pontas afiadas no pescoço para cortar a jugular de suas vítimas.
Aí temos
o resgate de vários símbolos de várias épocas atualizados
e recontextulizados. O nome usado acaba sendo Gótico, mas a palavra é
usada no sentido adjetivo e metafórico. Quando a subcultura define seus
padrões, aproximadamente entre 1983/84, o termo que predomina acaba sendo
Goth / Gothic.
(mais detalhes no capítulo 18-
Cronologia do uso subcultural do termo Gótico).
10- NO SÉCULO XXI: "PLANET EARTH IS BLUE..."
Há pelo menos dois tipos de Modas: aquelas que encontram um eco em uma
fase histórica, expressando um significado cultural e psicológico
importante, e aquelas outras que são apenas um sucedâneo das primeiras.
As do segundo tipo passam em pouco tempo.
Com quase 30 anos de estrada, o Gótico já provou ser uma "Moda" do primeiro tipo, e mais: se configurou como uma subcultura em constante atualização de seus elementos. Também sua música se tornou um gênero em constante atualização, não podendo ser reduzida "a fase pos-punk". Ao contrário de várias outras "modas" (do segundo tipo) musicais que desapareceram neste mesmo período.
Não há ligação causal entre as "culturas bárbaras ou pagãs" e a arquitetura das catedrais católicas na Europa da baixa Idade Média que mais tarde seriam conhecidas como "Góticas", mas que na época que foram construídas eram chamadas de "obra francesa". Assim, não temos nenhuma ligação com os "Godos".
Mas nos identificamos
com a reapropriação idealizada que o Romantismo fez da "Arte
Gótica" das catedrais do final da Idade Média. Nos anos 1980
nos reapropriamos desta reapropriação
e acrescentamos mais
temperos. Logo nossa ligação é apenas com as recriações
feitas pelo Romantismo e não com o Catolicismo.
As reapropriações de elementos do Romantismo e Romance Fantástico
do século XIX que o Gótico do século XX faz, também
são releituras mediadas pelo contexto histórico do século
XX e traduzidas pelas releituras e movimentos artísticos que aconteceram
entre um e outro.
Temos releituras: os livros e temas (Drácula, Frankenstein, Mr.Hide, etc...) já tinham sofrido releituras pelo cinema expressionista na década de 1930. Portanto a releitura que foi feita no final dos 1970's e 1980's já é uma releitura que inclui várias outras releituras. Além disso, isso está acontecendo no contexto do Modernismo, da pós-Pop-Art e do Situacionismo, etc.
Ora, uma releitura
é a reapropriação e resignificação de um
significado/símbolo para um novo contexto. (Mais informações
sobre processos de reapropriação de símbolos no Capítulo
3- A Homologia Subcultural, sua Flexibilidade e Evolução)
É a Sociedade Industrial, com suas filosofias, ideologias e, principalmente,
resultados na realidade, que dá esse contexto. Nele, a subcultura Gótica
vai encontrar significados em comum com uma série de movimentos artísticos
e de pensamento desde o começo do século XIX. Isso não
quer dizer que ela descenda diretamente deles ou de algum deles especificamente.
Nos anos 1990's, após a queda do Muro de Berlim, aconteceu uma tentativa "Fukuiâmica" de instalar um "neo-otimismo-mundial" made in USA, como no pós-guerra dos anos 1950. Aparentemente, não deu muito certo, e um novo "mal-estar" se espalha pelo nosso "blue planet". Ou "Black Planet"?
A história continua. E todas essas referências estão hoje sofrendo releituras pelo Gótico atual do século XXI, um século que começa tão ameaçador e conturbado como o final dos anos 1970. Talvez apenas o Apocalipse não seja nuclear e com exércitos em luta, mas ecológico ou financeiro e com ataques terroristas
De qualquer forma, um tom expressionista ou a fuga para um espaço imaginário mais etérico e menos utilitário continuam atuais como nunca. Dândis elétricos e uma cyber-decadência neo-vitoriana. Frankenstein continua sem lar pra voltar. Dorian Gray continua sem opção. Goth is Undead, again and again.