A Happy House in a Black Planet:
Introdução à Subcultura Gótica

12 - A TEMÁTICA MÍSTICA EM UMA SUBCULTURA LAICA

"Following the footsteps, of a rag doll dance, we are entranced. Spellbound"
"Speelbound"- Siouxsie & The Banshees

A Subcultura Gótica é laica, isto é, não tem religião. E muito menos se constitui ela mesma uma doutrina religiosa ou mística.

A ligação da subcultura Gótica com o ocultismo é meramente simbólica: ela se apropriou de alguns símbolos ligados historicamente a alguns misticismos e os usou de outra forma, da mesma forma que se apropriou de símbolos das mais diversas simbologias para construir seu sistema simbólico próprio.

Evidentemente isto muitas vezes fez com que pessoas que, em suas vidas pessoais, adotassem cultos pagãos europeus, ameríndios, africanos, asiáticos -ou de outras religiões não judaico-cristãs- se sentissem confortáveis ou atraídos pela subcultura Gótica.

Paralelamente a subcultura Gótica, desenvolveu-se um circuito de bandas e pessoas que levam alguns destes cultos mais a sério, mas isto é uma opção pessoal e complementar de cada um.

A subcultura Gótica apenas é tolerante o bastante para não disseminar nenhuma espécie de restrição a escolhas religiosas pessoais. Apenas, como já comentamos acima, é comum na subcultura Gótica e Darkwave (e talvez ainda mais no Death-Rock) encontrar letras e músicas que façam um uso de símbolos religiosos que pode ser considerado herético por alguém que seja religioso de forma dogmática. Também não são incomuns citações ateístas (mas isso é uma escolha pessoal de algumas bandas).

Citações em Bandas e Músicas

Alguns exemplos são :
-Ian Astbury, da banda Southern Death Cult (depois "Death Cult" e, finalmente "The Cult" a partir de 1983) tinha uma temática muito ligada ao paganismo e xamanismo dos índios da américa do norte. Além da adoção de percussões tribais, a influência é de Jim Morrisson, que representava transes xamanísticos em seus shows. Músicas como "Apache", "Moya" e "Ghost Dance" são literais. A temática da banda The Doors parece ter influenciado outras bandas góticas também.

- A música "Pagan Love Song" do Virgin Prunes,

-o album "Juju" do Siouxsie and The Banshees, (Juju é uma palavra africana para "Karma", e a capa traz uma escultura africana). Ao lado das percussões tribais o nome "Siouxsie Sioux" também é auto-explicativo: Sioux é uma tribo norte-americana.

- a banda Cristian Death trabalhou ostensivamente com a temática cristã, geralmente de forma chocante ou herética.

- A música "Inkubus Sukubus" do X-Mal Deutschland

- o nome da banda Dead Can Dance e a capa do primeiro álbum referem-se a uma máscara ritual da Nova Guiné e seu significado simbólico.

- a temática de halloween, vodoo e bruxaria é comum, mas geralmente em tom de brincadeira.

- bandas com nomes como "Two Wiches" e "Inkkubus Sukubus" dispensam maiores explicações. Esta segunda banda tem uma militância Pagã-Celta explícita.

- a banda "The Jesus and Mary Chain", além do nome considerado herético por alguns, também usa metáforas cristãs e o nome de Jesus de forma totalmente descompromissada.

Os exemplos são muitos mais, mas a abordagem é artística e poética, e não-religiosa. Ao mesmo tempo temos canções como "Gottes Tod" (a morte de deus) da banda Das Ich, que relata os sentimentos humanos na ausência de qualquer deus.

Símbolos Religiosos Recontextualizados pelos Góticos:

Assim, quando encontramos alguém na subcultura Gótica usando um determinado símbolo (cruz, ankh, pentagrama, etc) isso não quer dizer que esta pessoa seja adepta das respectivas doutrinas místicas ou religiosas.

Ao mesmo tempo a subcultura Gótica, desde sua origem, aborda seus temas de uma forma que pode questionar valores sociais e religiosos vigentes, muitas vezes usando de símbolos de forma herética ou questionando o sentido da vida. Isto pode causar algum choque ou incômodo a alguém que leve alguma religião mais a sério.

Mas ao mesmo tempo, são comuns símbolos como almas, anjos caídos, espíritos, ao lado de músicas com conteúdo não religioso. Dentro da subcultura Gótica, estes símbolos devem ser tomados da mesma forma que na poesia: como metáforas de sentimentos humanos.

Vampiros na Subcultura Gótica:

Os Vampiros são um dos diversos símbolos metafóricos na subcultura Gótica, entre muitos outros.

Um exemplo é o caso daquele que é considerado o hino não oficial da subcultura Gótica: a música "Bela Lugosi is Dead", (1979) da banda Bauhaus. A letra é uma sátira baseada no filme Drácula de 1932, cujo ator principal é Bela Lugosi, considerado por muitos uma referência de ator-canastrão.

A associação entre subcultura Gótica, Vampiros, música Gótica e Pos-Punk, Ankhs e Egiptologia se tornou "Pop" e consagrada a partir do filme "Hunger" (Fome de Viver, 1983). Nele, a mesma banda Bauhaus aparece na abertura tocando "Bela Lugosi is Dead" em um clube noturno no qual um casal de vampiros new-romantic (representados por David Bowie e Catherine Deneuve ) entram para caçar suas presas da noite. Esses elegantes vampiros em crise existencial usam amuletos Ankhs com pontas afiadas para cortar a jugular de suas vítimas. A vampira deste filme está viva desde o antigo Egito.

Em 1994 o livro de Anne Rice "Interview with the Vampire", escrito em 1976, é transformado em filme, trazendo às telas vampiros humanizados que colocam em cheque questões existenciais e morais. Bem, pelo menos para alguns deles...

Novamente, no filme "A Rainha dos Condenados", (também baseado no livro de mesmo título de Anne Rice) somos remetidos ao antigo Egito como origem do vampirismo através da personagem principal, Akasha.

Estes filmes e outros geram um "boom" da temática vampírica nos anos 90, tanto dentro da cena Gótica como fora dela. Apesar do tema do vampiro estar presente na subcultura Gótica desde os anos 80, aconteceu uma hipertrofia deste tema durante os anos 90 em detrimento de outros.

Mas o vampiro continua sendo um símbolo tradicional na subcultura Gótica. Junto a outros como os zumbis, Frankenstein e fantasmas, também o Vampiro não está nem morto nem vivo, levando a um questionamento do que exatamente significa estar vivo e viver.

Satanismo e Cristianismo:

A subcultura Gótica é laica, ou seja, não tem religião, mas também não é anti-religiosa por definição.

Não existe nenhuma ligação direta e literal da subcultura Gótica e Darkwave nem com Satanismo nem com Cristianismo.

Qualquer citação neste sentido é encontrada no sentido metafórico ou poético. Por exemplo: o crucificado como símbolo de sofrimento sentimental, ou o demônio como símbolo das tentações, o anjo caído como símbolo da perda das ilusões ou utopias, etc.

Um gótico pode ter qualquer religião ou nenhuma religião. Religião ou crença mística é uma questão privada e pessoal de cada um.

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