A Happy House in a Black Planet:
Introdução à Subcultura Gótica
11 - A ANDROGINIA E A MAQUIAGEM NA SUBCULTURA GÓTICA
Toda Cultura expressa
e comunica seus valores através de um sistema de símbolos estéticos.
Não é diferente com a subcultura Gótica e a tendência
Darkwave.
Evidentemente ninguém é obrigado a usar maquiagem ou a ser andrógino.
Mas desde o seu estabelecimento, na virada dos anos 1970 para os 80, a subcultura
chamada de Gótica teve, entre as suas características diferenciais,
o gosto pelo jogo de cena da androginia e da maquiagem teatral. Estes dois elementos
não são gratuitos: estão ligados às demais influências
e referências culturais dessa subcultura.
As Influências e a Maquiagem
Insatisfeita com o mundo atual, a subcultura Gótica vai buscar equivalentes
simbólicos desta insatisfação na cultura do passado recente.
Ou em um passado idealizado ou "alterado" que usamos para comentar
o nosso presente.
O contrário
de uma sociedade amena e pasteurizada é a busca pelo drama, expressão
e catarse. Os elementos estéticos adotados pela subcultura Gótica
são buscados exatamente no teatro, no cinema expressionista e no cinema
da nouvelle-vague francesa, no teatro popular ou vaudeville, na cabaret culture
dos anos 1930 e na estética da geração beat e glam, mas
também em uma estética romântica e vitoriana, adequadas
a um poema de Baudelaire ou a um conto de Poe ou de Oscar Wilde.
O Teatro da Vida: luz forte gerando sombras intensas
O teatro e o cinema expressionista usam a maquiagem de grande contraste entre
o branco e o negro por dois motivos básicos e convergentes:
1) a intenção de amplificar a expressão dos traços
e expressões e o caráter dramático das relações
e
2) permitir a visualização a distância (no caso do teatro)
e em condições de filmagens precárias (iluminação,
tipo de película primitiva, etc) ou com opções estéticas
minimalista de alto contraste de luz e sombra.
Também o teatro oriental carrega muito nas maquiagens. Ainda hoje, como era feito no passado no teatro ocidental, são permitidos apenas homens como atores, mesmo para os papéis femininos. É quase certeza que nas primeiras apresentações das peças de Shakespeare, Julieta fosse um menino ou rapaz
O conceito essencial do Expressionismo, seja na pintura ou no cinema, é o grande contraste e a amplificação e expressão das emoções e sentimentos. Por isso, o uso de luz forte para produzir uma grande sombra e contraste é um elemento estético que expressa um significado intencional.
A Androginia como
Representação da Crise dos Papéis Sociais
Apenas na década de 60 do século XX a questão da posição
do homem e da mulher na sociedade sofreu uma crise. Saímos de uma posição
milenar que privilegiava o homem para uma posição de crítica
a este modelo, em busca de uma igualdade que ainda estamos longe de alcançar,
apesar dos avanços. Não podemos esperar que um desequilíbrio
de milênios seja corrigido em apenas poucas décadas.
Mas desde 1960 homens e mulheres começaram a conquistar o direito de expressar e desenvolver partes de suas psiques que antes lhes eram vedadas. Por exemplo, as mulheres conquistaram o direito a se desenvolver intelectual e profissionalmente, e os homens, emocional e parentalmente.
Agora as meninas já podem ser mais independentes e os meninos já podem chorar. As mulheres podem ter a satisfação profissional enquanto os homens vêm conquistando o direito de serem pais, e não apenas provedores de suas famílias. Foi apenas o começo do caminho para que ambos os gêneros se tornem um dia seres humanos mais completos.
Mas o que nos interessa aqui é que vários movimentos de vanguarda desenvolveram estéticas exageradas ("expressionistas") para expressar essas mudanças. Ou para lutar por elas.
A Androginia Estética
As cenas culturais de vanguarda ou underground de várias épocas
anteciparam as questões do futuro, ao mesmo tempo que abrigavam aqueles
que não tinham lugar na sociedade oficial por estarem em desajuste com
o pensamento de sua época.
Nos anos 1970, a questão da bissexualidade psicológica do ser humano foi expressa de forma radical pelo movimento Glam-Rock. O uso da maquiagem neste movimento é largamente difundido, tanto para homens quanto para mulheres.
Foi realmente um choque radical para criar a ruptura com uma sociedade que ainda preservava modelos tradicionais do que é ser homem e o que é ser mulher.
Com o tempo, o choque se diluiu e foi absorvido, e algumas mudanças, que são hoje consideradas normais, foram estabelecidas.
Oficialmente o
Glam acaba em 1975, mas boa parte de seus conceitos vai, a seguir, ser absorvida
por novos movimentos que estão surgindo: a new-wave, o pos-punk inicial,
o new-romantic e o gótico.
Androginia X Homossexualidade
Androginia e homossexualidade não são a mesma coisa. Androginia
é uma opção estética e a homosexualidade é
uma opção sexual.
Assim, um homem ou uma mulher pode optar por uma estética Andrógina e ao mesmo tempo ter qualquer opção sexual: heterossexual, homossexual, bissexual ou nenhuma das anteriores...
Além disso, a maioria dos Homossexuais não usa visual andrógino, sendo bastante comum visuais totalmente masculinos e alguns visuais até com certo exagero das características masculinas (barba, bigode, cavanhaque, músculos trabalhados, costeletas, etc). E as homossexuais femininas freqüentemente usam visuais socialmente aceitos como femininos.
Evidentemente que no passado, em uma sociedade conservadora, preconceituosa e homofóbica, uma subcultura como a Gótica, que usa a androginia como símbolo estético, sofria do mesmo preconceito que a homossexualidade sofria.
Ao mesmo tempo, antes da organização dos movimentos pelos direitos homossexuais nos anos 90 e da formação de uma cena e subcultura GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), fica fácil entender por que a subcultura Gótica era uma opção de abrigo para homossexuais de ambos os sexos. Em qualquer outra cena alternativa sofreriam mais preconceito. Não que não sofressem também nesta, mas ao menos na cena Gótica isso era uma incoerência.
Essa "licenciosidade" simbólica na esfera sexual acabou agregando vários elementos fetichistas à estética da subcultura Gótica e Darkwave, como os elementos estéticos Sado-Masoquistas. Mas, na maioria dos casos, estes elementos são usados apenas como fetiches estéticos.
Cabe ressaltar
que hoje na subcultura Gótica é mais comum um visual feminino
tanto para as mulheres como para os homens. Hoje, vemos um número muito
menor mulheres com visual andrógino do que em outras cenas. Talvez fosse
mais apropriado dizer que a subcultura Gótica valoriza um certo tipo
de "feminilidade estética" tanto para homens como para mulheres.
A Androginia e o Vampiro: A Face Branca do Impuro
Ao longo dos anos 1990 o Vampiro se tornou um ícone pop ainda maior do
que nos anos 1980. Como sabemos, o Vampiro é considerado um símbolo
da expressão de impulsos tidos como impuros ou pecaminosos pela sociedade
oficial. Este uso simbólico do mito do Vampiro é coerente com
os demais elementos estéticos do Gótico que abordamos aqui. Assim,
um Gótico pode usar um visual de Vampiro ou não. Esta é
uma das diversas opções de visual.
Maquiagem Branca
e a Questão Étnica
Como vimos nos itens anteriores, a maquiagem branca do Gótico não
tem nenhuma ligação com a intenção de parecer ou
ser mais "branco" do ponto de vista étnico. Pelo contrário,
o branco na maquiagem Gótica simboliza uma expressão dramática
ou catártica, ou ainda o caráter do Impuro do Vampiro ou ainda
da palidez da morte como questão existencial.
Ao mesmo tempo, a inclusão de diversos elementos estéticos de culturas não-européias modernas no universo Gótico e Darkwave (asiáticos, africanos, orientais, pagãos) caracterizam nossa subcultura como multi-culturalista. Ao mesmo tempo, elementos estéticos da cultura Européia antiga são integrados nesta "salada-de-frutas".
Por isso temos
Góticos de todas as etnias: brancos, negros, amarelos, mulatos, vermelhos,
verdes
(bem, se levarmos em conta a maquiagem, a lista não tem fim
).
A Individualidade Dentro de Uma Cultura
Toda Cultura expressa e comunica seus valores através de um sistema de
símbolos estéticos. Não é diferente com a subcultura
Gótica. Da mesma forma, há pessoas que usam de formas diferentes
ou em quantidades diferentes o repertório estético da cultura
a qual pertencem. Também, existe um uso estético diferente para
cada ocasião: existe uma estética para o trabalho, uma para a
festa, outra para o casamento, uma para o dia, outra para a noite, e assim por
diante.
Assim, uma pessoa pode construir uma individualidade dentro de uma cultura. Quanto mais informação estética uma pessoa tiver, maior o repertório que ela tem para escolher elementos estéticos coerentes com a sua personalidade e intenções.
O mesmo vale para
as características simbólicas, artísticas e psicológicas
em uma subcultura. Esta questão é mais desenvolvida na parte "c"
do capítulo "7- Características da Subcultura Gótica".
Moda Outono-Inverno
e o ano inteiro.
A subcultura Gótica foi influenciada e herdou elementos de movimentos
contra-culturais, e já surge com a desilusão de que "não
adianta perder tempo com a sociedade oficial, vamos criar nosso mundo à
parte, incluindo o que falta no outro".
Neste aspecto, podemos dizer que a subcultura Gótica é mais "completa" que a cultura oficial, pois inclui todos os elementos desta e mais os aspectos "obscuros" e dramáticos que ela nega. Se a cultura oficial é a primavera e o verão, a subcultura Gótica é o ano completo.
Evidentemente, por efeito compensatório da alienação da sociedade oficial, a subcultura Gótica enfoca mais o outono e o inverno. Mas de forma alguma deixa de "dançar saltitante nas paixões da primavera e de sucumbir à lassidão e ludicidade luxuriosa dos verões escaldantes".( rsss....)
Enquanto o outono
e o inverno não chegam, é claro