A Happy House in a Black Planet:
Introdução à Subcultura Gótica

07-CARACTERÍSTICAS DA SUBCULTURA GÓTICA

E) APOLOGIA À CULTURA E SAUDOSISMO

É difícil dizer se os Góticos são um grupo social mais culto que outros, mas algo que se pode dizer com segurança é que Góticos são "cultófilos", ou seja: colocam a "cultura" como um valor importante, geralmente em oposição a um mundo considerado "materialista", que rejeitam. Mas qual "cultura" e qual "arte" é valorizada no seio da subcultura Gótica?

Góticos costumam fazer uma sacralização da cultura, considerando a poesia e outras artes como um símbolo importante. A diferença não está em valorizar a "cultura", mas considerar que esta é um valor mais importante do que outras coisas "utilitárias" ou "mundanas". Na poesia, não por coincidência, escolas românticas e simbolistas costumam ter a preferência.

Também na vestimenta vemos uma grande tendência à fuga ao utilitarismo e rejeição ao pragmatismo: as peças de vestuário mais típicas dos góticos primam pelo excesso, por adereços "inúteis", seja na sobreposicão de um visual pos-punk ou no rococó de um visual neo-vitoriano. Em ambos os casos temos um afastamento do "funcional", do "prático" e do "natural". E uma busca do artifício, do artificial e do artístico.

Mesmo bebendo da cultura geral, os Góticos sacralizam alguns aspectos desta como estandartes de diferenciação em relação ao "gosto popular" e "mundano". Aparentemente estes gostos dos Góticos procuram exatamente demarcar uma fronteira em relação a uma sociedade dominante em que o lírico e tudo que não é prático ficam em último lugar.

As mesmas referências culturais que são tão valorizadas no seio da subcultura Gótica podem ser encontradas no conjunto cultural "normal", mas no sistema Gótico estas obras recebem outros significados por serem consideradas relacionadas a todo um sistema de valores, comportamentos, músicas, etc. A grosso modo, podemos dizer que um poema de Allan Poe (ou outro autor importante) na subcultura Gótica não é mais um "ítem de cultura" mas, além disso, se transforma em algo como um "avatar" que remete a todos os demais elementos do sistema de símbolos da subcultura Gótica:

"O que explica essa sacralização de um tipo de obra de arte é seu caráter durável, (…) estas obras cristalizam os valores e as idéias centrais do movimento Gótico".
(Durafour, 2005)

Assim, os Góticos não parecem estar interessados em "qualquer" cultura, mas em obras duráveis e/ou de significado perene. E que sirvam para referendar sua visão de mundo específica.

Complementar a essa busca pelo perene e durável, o "saudosismo" é, previsivelmente, uma outra forma de rejeição ao utilitarismo do mundo atual, que valoriza mais o novo e o descartável.

Esse saudosismo se manifesta por uma "síndrome de Paraíso Perdido", que pode ser tanto um "passado em que éramos mais humanos", um "presente decadente" ou "um futuro que vai ser apenas um passado tecnologizado". Não sabemos exatamente o que perdemos, mas deve ter sido melhor…

Qualquer uma dessas idéias coloca o conceito de "progresso", no mínimo, como questionável.

Aqui é difícil não traçar um paralelo com o aspecto "anti-positivista" do Romantismo e movimentos relacionados a este. Paralelo enriquecido por todo um repertório rico de referências herdadas de movimentos de caráter semelhante desde o final do século XIX e por todo século XX. Não é a toa que algumas das grandes fontes de referências dos Góticos desde os anos 1980 são o cinema Expressionista, autores Românticos e o Romance Gótico.

Mas "o movimento Gótico não é verdadeiramente contestatório. Ele se concentra mais em se mostrar, num jogo de papéis permanente (no qual se olha no olhar do outro)." (Durafour, 2005)

Mas apesar desse aspecto saudosista, o meio Gótico é bastante "celebrativo", pois a resposta dos Góticos ao "Memento Mori" (lembra-te que morrerás) geralmente é "carpe noctem" (aproveita a noite, uma variante notívaga do tradicional conselho latino "carpe diem"- aproveita o dia).

Afinal, não existe solução para este "Black Planet" dentro do limiar de nossas existências. Mas não esquecemos do que tem sido perdido, e o celebramos na privacidade e segurança de nossas "Happy Houses".

O inferno, como diz essa nossa querida canção "é lá fora".

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