A Happy House in a Black Planet:
Introdução à Subcultura Gótica

07-CARACTERÍSTICAS DA SUBCULTURA GÓTICA

D) A TEATRALIZAÇÃO E O CORPO

"Devemos ou ser uma obra de arte, ou vestir uma obra de arte"
("One should either be a work of art, or wear a work of art")
Oscar Wilde, circa 1900

"No seio do movimento (1) gótico, o visual, a dança, as atitudes e as posturas formam uma linguagem estética codificada que concorda com uma nova percepção da corporeidade (conjunto dos traços concretos do corpo como ser social): perceber os corpos como "obra de arte" é reconsiderar seu valor em um mundo onde nossos corpos não nos pertencem mais verdadeiramente." (Durafour, 2005)

No meio Gótico, temos uma teatralização do ambiente e dos comportamentos, e a trasformação de nós mesmos e de nosso corpo:

Uma "visão de si mesmo em uma sociedade percebida como desencantada, um culto da evasão e de irracionalidade permitindo, paradoxalmente, se reencontrar a si mesmo pela reapropriação do corpo, …(…graças a uma certa ética da estética.)" (Durafour, 2005).

Todo grupo social tem seus códigos comportamentais. Os códigos da subcultura Gótica são de um tipo específico, coerente com outros aspectos de seu sistema. O tipo de teatralização ou "exagero" no comportamento típico da interação entre góticos em seu ambiente faz com que o indivíduo se reaproprie de seu corpo, fazendo dele um certo discurso.

Podemos perceber essa teatralização e uso discursivo do corpo e do visual como semelhante aos outros elementos simbólicos da subcultura Gótica.

Esse discurso é facilmente perceptível pelos outros góticos ou por pessoas que vivenciaram ambientes góticos. Sua falta também serve para que os Góticos percebam "outsiders" em seu ambiente, ou se comuniquem na presença de "estrangeiros culturais", ou fora de ambientes que aceitem Góticos. Ou simplesmente se reconheçam nas ruas, às vezes por um detalhe sutil.

Assim, a expressão corporal se torna um produto social e cultural.

Mas quais as características desta teatralização na subcultura Gótica? Outros grupos sociais também teatralizam, mas com significados e intensidades diferentes. Observemos características da dança, da música e de relação:

"A música gótica (…) joga com os registros de amargura, melancolia, obscuridade, do contraste entre doçura e violência; apta a veicular uma gama de emoções das mais diversas. Os sons inquietantes…(…) atmosfera inabitual, (…)cinematográfica, (…) música teatral, que busca sempre a expressão do belo no sofrimento, na melancolia e na morte." (Durafour, 2005)

Temos assim uma trilha sonora ideal que nos lembra a letra de "She's in Parties" do Bauhaus. Estamos atuando em alguma peça ou filme sombrio e melodramático. Criamos um espaço separado do mundo, fantástico e fantásmático, que comenta o terrível mundo "lá fora". A happy house in a black planet.

Os comportamentos e coreografias mais comuns nas pistas de eventos Góticos típicos nos dão mais indícios:

"O estilo de dança gótico (…) como outras características oscila entre o teatral e o dramático. Nas músicas de tempo baixo é comum o estilo "etérico" ou ondulatório, com coreografias simples mas que simulam ou buscam uma imagem de "transe" e "sublime". Algumas destas coreografias improvisadas permanecem nos tempos acelerados, que incorporam gestos rápidos e dramáticos em que a agilidade do dançarino é ressaltada, parecendo expressar uma sucessão de emoções fortes teatralizadas. Assim temos um contraste com outros estilos musicais que não possuem tipos de dança com tanta improvisação nem com tanta simbolização". (Durafour, 2005)

O autor está comentando a cena Gótica francesa, mas os mesmos tipos de estilização comportamental e de dança podem ser observados entre Góticos brasileiros ou norte americanos, etc.

"Assim, o universo Gótico é fortemente teatralizado. Tudo é questão de representação e de manipulação estética, incluindo a expressão da violência, quando ela existe. Neste assunto, convém separar o universo Gótico do universo Black Metal, que é musicalmente muito violento" (Durafour, 2006, La Presse)

Às vezes a atitude teatral acaba causando um mal estar exatamente por funcionar como um espelho de comportamentos "escondidos" ou "dissimulados" de nossa civilização atual:

"o mundo gótico torna-se horripilante a medida que (outras pessoas) perdem a profundidade psicológica. A vida em geral torna-se "teatral", uma "morte em vida", e os eus corporificados tornam-se meros atores ou caricaturas, ou em alguns casos mais severos, coisas insensatas que estão juntas, como autômatos ou cadáveres ambulantes"(2)

Talvez por isso a subcultura Gótica continue após tanto tempo: ela é um espelho cada vez mais atual, ou uma resposta lúdica a um conjunto de questões de nossa sociedade que possivelmente não terão solução nas próximas décadas. Ou séculos, se não formos otimistas…

Notas:
(1) No meio Gótico brasileiro, a palavra "movimento" foi bastante usada até o começo dos anos 90 para definir esse meio. Porém depois passou a ser considerada "out", devido a conotação fortemente política que muitos consideraram ser o único significado deste termo. Mas a palavra "movimento" tem diversos significados, não apenas "ação para alterar a sociedade". No caso do autor que citamos, ele usa o termo em francês de forma bastante livre, em conjunto com outros.

(2) A. Henderson, "Romantic Identities" 1996, p.54, em "Visões Perigosas", de Adriana Amaral, 2006, p.59.

Voltar ao Indice