A Happy House in a Black Planet:
Introdução à Subcultura Gótica
07-CARACTERÍSTICAS DA SUBCULTURA GÓTICA
C) ABSORÇÃO
DE ELEMENTOS DE ESTILOS RELACIONADOS
Primeiro é preciso salientar que a criatividade, e um certo nível
de "contravenção" em relação ao que é
considerado o "visual padrão" de certa época na cena
Gótica, é algo geralmente visto como positivo. A herança
de princípios do "faça você mesmo" ainda perdura,
apesar da proliferação atual de grifes especializadas na estética
Gótica.
A "colagem" com elementos estéticos de outras subculturas relacionadas indica exatamente uma forte consciência dos padrões estéticos de cada uma dessas subculturas, pois estes elementos de "outras" subculturas são usados freqüentemente como "detalhes" sobre uma base mais "consistentemente gótica". Muitas vezes como um comentário visual característico do senso de humor auto-irônico comum na cena Gótica.
Segundo, é importante esclarecer o que significa "estilos relacionados". Geralmente são absorvidos pelos góticos alguns elementos de grupos considerados "alternativos". Alternativo se tornou nos últimos anos um termo guarda-chuva que genericamente se define por oposição a "mainstream" (moda dominante).
Isso vale tanto
para o visual quanto para a música ou outros elementos.
Se na fase pos-punk dos anos 80 já podíamos perceber elementos
fetichistas, esta tendência estética cresceu dentro da cena Gótica/Darkwave
ao longo dos anos 90 até hoje, com Sex-Shops e lojas de roupas Sado-Masoquistas
se tornando mais um destino de "shopping" subcultural.
Outro destino de "shopping" são os brechós, lojas de roupas, sapatos e utensílios usados ou antigos que oferecem uma enorme variedade de elementos para composição, tanto de um estilo Gótico clássico, como de um composto de elementos "relacionados".
No Brasil, especialmente em S.Paulo, desde os anos 80 tivemos a cena Gótica convivendo com diversas outras cenas, logo, absorvendo elementos considerados aceitáveis destas. Começando pelos Darks, com sua mistura de elementos punk, new wave e new romantic, ainda nos anos 80 temos uma convivência do Gótico com o que passou a ser chamado de Indie, Rockabillies, etc. O caso do Indie é curioso pois Góticos paulistas compartilharam clubes com Indies pelo menos de 1988 a 1997, sendo que, porém, mais no final deste período, os dois grupos se diferenciam no visual e nas bandas preferidas, principalmente ao sucesso comercial do chamado "brit-pop" (aprox. 1994/95).
Passados mais de dez anos, em 2007 um revival de estética 80's e "goth" no mainstream leva as duas cenas a ter algumas tendências em comum novamente.
Mas a tendência mais forte no final dos anos 90 é a incorporação de alguns elementos de música eletrônica mais popular como trance, tecno e electro, revitalizando tendências da Darkwave, Darkeletro e EBM. Isso levou a tendências estéticas complementares, com a estetica "cyber" e elementos visuais absorvidos das cenas "rave" ou dance-club: tops, vestidos e calças apresentando desenhos brilhantes ou sensíveis a raios ultra-violeta, cabelos coloridos ou com apliques em cores vivas como pink, laranja, verde, azul.
"Os últimos
anos do século XX assistiram ao advento do cibergótico. A música
industrial deu ânimo masculino à feminilidade espiritual da subcultura
Gótica, de forma que o casamento arranjado entre o gótico e o
metal nunca foi consumado. "Eu vejo o industrial e o gótico como
dois lados da mesma moeda- o yin e o yang- o masculino e o feminino, escreve
Alicia Porter em sua pesquisa "Study of Gothic Subculture", divulgada
pela Internet. " O gótico expressa o emocional, a beleza, o sobrenatural,
o feminino, o poético, o teatral; e o industrial incorpora o masculino,
a raiva, a agressividade, o barulhento, o científico, o tecnológico,
o político. (...)"
("Goth Chic", de Gavin Baddeley, pag 281, trad. de Amanda Orlando).
Sobre essa mistura
de estilos, Hodkinson comenta:
"apesar de consistir de numerosos elementos agrupados de diferentes fontes
e em diferenetes estágios, existia um estilo gótico diferenciado
bem discernível, o qual se manifestava consistentemente de um indivíduo
para o outro, de um lugar para o outro e de um ano para o seguinte."
Na passagem para o século XXI, além do revival pos-punk no mainstream, se popularizam bandas e os estilos oriundos do Japão conhecidos como Gothic-Lolita e Visual K. Elementos soltos desta tendência acabam por ser usados por Góticos de todo o mundo. Como uma certa reação aos estilos "ultra-dance" da virada do século, temos acompanhado também um movimento de resgate de "visuais tradicionais" e "bandas acústicas" com a valorização de visuais extremos e bricolados, ligados a tendências próximas ao DeathRock, Cyber-Goth e Gothic-Lolita. Ao lado destas temos as tendências mais tradicionais, gerando misturas de visuais e sonoridades bastante criativas neste final da primeira década do século XXI.