A Happy House in a Black Planet:
Introdução à Subcultura Gótica

07-CARACTERÍSTICAS DA SUBCULTURA GÓTICA

B) O FEMININO E O AMBÍGUO

"Para esta ética de estética, eles (nt: Góticos) se distanciam de todo imaginário brutal que poderíamos encontrar entre certos grupos de metal extremo. No seio do meio Gótico, valoriza-se mais a feminilidade, a androginia e o espírito dandy." (Durafour)

Inicialmente é preciso advertir que aqui nos referimos ao "feminino" como manifestações comportamentais, e não como gênero biológico ou opção sexual. E isso só pode ser compreendido se considerarmos que a divisão das características humanas em papéis "femininos" e "masculinos" é, em grande parte, construída histórica e ideologicamente.

"Embora sem a paródia, ou sem fins políticos explícitos, o meio-ambiente padrão característico da cena Gótica afrouxou consistentemente os elos entre as facetas estilísticas dos gêneros e as categorias sexuais fixas de homem e mulher. Mais especificamente, sem realmente considerar estas categorias insignificantes, o gótico, desde o seu começo, se caracterizou pela predominância, tanto nos homens quanto nas mulheres, de tipos de estilos específicos que seriam normalmente associados com feminilidade."(Hodkinson, 2002).

Se observarmos a estética, temas líricos e atitudes góticas desde os anos 80, é difícil não perceber que esta subcultura teve um papel de consolidação e ruptura na "segunda fase da revolução sexual" do século XX. Se nos anos 60 as mulheres saíram as ruas lutando por ter direito a comportamentos considerados historicamente "dos homens", na passagem dos anos 70 para os 80 temos o começo de um movimento masculino pela reintegração de partes do comportamento humano que eram tabus para os homens dos séculos anteriores por serem considerados "femininos".

Obviamente a subcultura Gótica não é militante neste sentido, mas ela surge e se desenvolve neste contexto. Especialmente no Brasil do final dos anos 80, um país conservador e predominantemente católico saindo de uma ditadura militar de direita. Lembremos que uma "cena" GLS autônoma só vai se estruturar abertamente no Brasil nos anos 90.

Desde os anos 80, estilos específicos de maquiagem, que tem sido lugar-comum desde os tempos da banda Bauhaus (1979-1983), permaneceram populares tanto para os homens quanto para as mulheres durante o final dos anos 1990 e ainda hoje em pleno século XXI.

A quantidade de jóias prateadas espalhadas pelo corpo e roupas também permanece, tendo apenas aumentado em quantidade e variedade durante os anos 90, especialmente com a popularização dos piercings. Mas isso é um sintoma do aumento da tolerância dos costumes: se nos anos 80 bastavam dois brincos para um rapaz sofrer preconceito na rua e ser olhado com estranheza, ao longo dos anos 90 os brincos masculinos deixaram de ser sinônimo de homossexualidade e/ou ligações ilegais. Assim, Góticos e alternativos passaram a se esbaldar na quantidade de brincos, piercings e cores de cabelo, especialmente nas zonas urbanas e metrópoles, historicamente centros que irradiam mudanças de comportamento.

Dentro desse contexto, se nos anos 80 o elemento de feminilidade era expresso de forma relativamente mais "discreta" no seio da subcultura Gótica, ao longo dos anos 90 ele passou a ser expresso sem nenhum pudor. Se antes o uso de meias arrastão por todo o corpo era restrito às bandas e aos mais ousados, nos anos 90 e até hoje se tornaram um lugar comum para ambos os sexos, assim como proliferou o uso de saias longas ou curtas para os homens, juntamente com o fetiche por adereços Sado-Masoquistas.

No Brasil, é facil compreender essas mudanças também no contexto das ruas: entre 1988-1992 (ou até o final dos anos 90 em alguns casos) Góticos saiam de casa "disfarçados de normal", deixando para fazer sua maquiagem e vestir roupas mais ousadas apenas nos banheiros ou calçadas de seus clubes, pelo simples motivo de que era muito perigoso usar um visual fora dos padrões nas ruas naquelas épocas. Era comum o preconceito, ameaças ou agressões de fato, provindas tanto de populares como de outros grupos subculturais que tem a homofobia e comportamentos rígidos em sua cartilha de comportamentos. Hoje isso ainda acontece, mas com menor freqüência.

"Em um movimento que remonta a algumas das influências punks originais, aspectos da cena fetichista dos anos 1990, e, indubitavelmente, a indústria do sexo, se tornaram largamente populares. Era cada vez mais fácil ver Góticos de ambos os sexos vestindo calças, camisas, saias, corsets, tops e coleiras de borracha ou PVC preto e, às vezes, colorido (...) Importantíssimo, no contexto da cena Gótica, do mais simples ao mais radical exemplo destas vestimentas foram sempre valorados mais em termos de suas qualidades estéticas subculturais do que por suas conotações sexuais."(Hodkinson, 2002).

Desde os anos 80 até hoje os tipos físicos mais "desejados" no seio da subcultura Gótica tendem a borrar os limites do "masculino" e "feminino", principalmente no visual masculino. Historicamente, rostos e corpos finos, esguios ou alongados são valorizados tanto para homens quanto para mulheres. Já no estilo de corpo mais "cheio" a capacidade de apresentar um vasto decote de seios abundantes (mesmo que impulsionados por corsets ultra apertados…) é valorizado entre as mulheres. Entre os homens, Robert Smith e Frank The Baptist são bos exemplos de "gordinhos fofos" que representam outro padrão estético comum.

Um homem considerado "efeminado" pelo padrão estético da cultura dominante ou mesmo em outras subculturas, provavelmente teria vantagens na cena Gótica. Mas se no passado a cena Gótica teria sido sua única opção de esconderijo, desde os anos 90 existem algumas outras cenas além da Gótica onde os andróginos podem se sentir confortáveis, notadamente a cena chamada no Brasil de "Indie", entre outras.

"… ser "um pouco emotivo as vezes", em adição a sua aparência esguia, indica claramente que a demonstração pelos homens de certas características comportamentais e atitudes associadas com a feminilidade era também mais comum na cena Gótica do que na maioria dos elementos da sociedade fora dela. Isso certamente se reflete fortemente em alguns exemplos da música gótica, nos quais os estereótipos de temas emocionais, auto-indulgentes e angustiados- todos os quais tendem a ser mais associados com a feminilidade do que com a masculinidade- são uma generalização, mas não de toda imprecisa." (Hodkinson, 2002)

Esta aceitação de que homens tenham comportamentos e expressem emoções historiamente consideradas femininas não significa que exista um padrão de homossexualidade na cena. A grande questão é que existe uma dissociação entre o "papel social/comportamental" e a opção sexual. Isso quer dizer que um homem pode ser "feminino" e heterossexual. Esta tolerância comportamental levou a que várias coisas deixassem de ser tabu na cena Gótica, como o contato físico fraternal entre pessoas do mesmo sexo, algo ainda problemático em outros grupos culturais.

Ao mesmo tempo, a cena Gótica se manteve como um ambiente seguro e hospitaleiro para comportamentos homossexuais e bissexuais, até mesmo valorizando tais coportamentos no nível simbólico. Podemos levantar a hipótese de que se tenha desenvolvido entre Góticos um tipo subcultural de feminilidade, adotada por ambos os sexos. Mas esta é uma questão complexa demais para ser desenvolvida aqui, onde buscamos delinear traços comportamentais gerais da subcultura Gótica.

O fato é que a subcultura Gótica tolera uma grande variedade de comportamentos, visuais e estéticas. Aqui estamos descrevendo apenas os padrões mais estáveis nos últimos 25 anos, aproximadamente.

Toda essa observação nos leva a ponderar que a subcultura Gótica tende mais para a Feminilidade do que para a Androginia, visto que hoje é comum vermos tanto homens como mulheres com visuais femininos, mas é bem menos comum verificar mulheres com visual masculinizado (algo mais comum em outras subculturas, como a Indie, Punk, etc).

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