A Happy House in a Black Planet:
Introdução à Subcultura Gótica

06- ESTRUTURA DA SUBCULTURA GÓTICA

6.1) INDICADORES DE CONSISTÊNCIA SUBCULTURAL:

"O estilo encapsula importantes elementos de diversidade e dinamismo, suas fronteiras não são absolutas, e os níveis de comprometimento variam de um indivíduo para outro.Além disso, mais do que se basear inteiramente na gravitação automática de seus participantes, as construções iniciais e sua subseqüente sobrevivência se baseou em redes de informação e organização internas e externas, freqüentemente na forma de mídia e comércio." (Hodkinson, 2002)

Podemos listar na subcultura Gótica, quatro fatores interligados e complementares de consistência subcultural:
- DIFERENCIAÇÃO CONSISTENTE
- IDENTIDADE
- COMPROMETIMENTO
- AUTONOMIA

a) DIFERENCIAÇÃO CONSISTENTE e TRANSLOCALIDADE
Apesar das naturais evoluções e variações ao longo do tempo, a subcultura gótica apresenta uma coerência estética, simbólica e de significado nestas duas décadas e mais alguns anos. Se tomarmos os desenvolvimentos desde 1984, quando os padrões ficam mais definidos e conscientes, até hoje, essa variação mantém sua consistência interna.

Góticos de todo o mundo e das diversas variantes da subcultura Gótica se reconhecem com facilidade. E provavelmente eu terei uma visão de mundo e mais assuntos em comum com um Gótico da "Xland" a milhares de quilômetros de minha casa do que com meu vizinho da porta da frente. Por isso podemos dizer que a subcultura Gótica é "translocal": é um grupo social que não é definido nem limitado por uma unidade espacial ou territorial. Evidentemente as cenas de cada país tem suas peculiaridades, mas elas não chegam a desfazer o nexo subcultural nem de significados em comum.

Mas ao mesmo tempo não acontece uma uniformização ou constituição de um exército de clones: como em qualquer cultura, mesmo compartilhando de um background subcultural em comum, os indivíduos continuam indivíduos e expressam suas visões individuais. Também, dentro do rico leque estético e cultural da subcultura Gótica, existe um incentivo à criatividade e à individualidade.

b) IDENTIDADE:
" (...) um claro e sustentado senso de identidade grupal, por si só, começa a estabelecer um agrupamento como substantivo em vez de efêmero. No caso da cena Gótica, enquanto a precisa importância da identidade subcultural relativa a outros aspectos da vida diferia entre os góticos, podemos observar que um senso de semelhança de pensamento (NT: "like-mindedness") com outros góticos- sem importar sua localização geográfica- era freqüentemente considerado pelos participantes como a mais importante parte de sua identidade." (Hodkinson, 2002).

Essa "semelhança de pensamento" não se configura como uma "ideologia" no sentido político do termo nem com uma "filosofia" no sentido acadêmico do termo, mas sim como uma "visão de mundo" compartilhada e expressa esteticamente, o que pode ser verificado de forma estável nessa produção subcultural nos últimos 20 anos.

c) COMPROMETIMENTO:
Lamentamos informar a pais e parentes (e filhos…) que a participação na subcultura Gótica não é uma fase da adolescência. Hoje temos Góticos dos 13 aos 45 anos, no mínimo. Para muitas pessoas, ser Gótico é algo para a vida toda, mesmo que para alguns destes a forma de participação e expressão, com o passar do tempo, se torne mais reservada ou discreta.

Góticos constituem família, tem filhos e netos. Trabalham e desenvolvem carreiras nas mais diversas profissões, sem nunca perder o bom humor e a ironia pelo fato de o resto da humanidade ter menos senso de humor mórbido ou ser limitada esteticamente.

Evidentemente, para aqueles adolescentes que se aproximam de alguma subcultura ou grupo modista apenas para, por algum tempo, "pertencer a um grupo", essa participação vai ser uma fase adolescente pelo simples fato de que este é um comportamento típico da adolescência. Mas estes não nos interessam aqui, pois abandonarão a subcultura em um período curto, tendo em geral a reação típica de desprezar o grupo ao qual havia se filiado, considerando-o como "bobagem adolescente", que não interessa a alguém agora tão "adulto". Hm. Bem, Freud explica…

Mas o que nos interessa aqui são aqueles indivíduos que permanecem, pois realmente aconteceu uma identificação entre sua visão de mundo pessoal e pelo menos parte da visão de mundo expressa pela subcultura Gótica. Provavelmente alguns destes tenham se aproximado por motivos totalmente aleatórios, "de gaiato", ou levados por amigos ou até por acidente. Isto não importa. O que importa é que permaneceram porque ocorreu uma identificação.

Identificação inicial que na maioria das vezes não é racional, mas, como uma paixão, nem por isso é menos significativa.

Com o passar dos anos, a pessoa vai aos poucos entendendo as razões desta atração inicial. Não é sábio esperar que alguém que participa há pouco tempo já tenha uma visão consciente dos motivos de sua participação, pois provavelmente isso seria forçado. Isso é algo que acontece naturalmente com o tempo.

Ninguém aqui tem pressa, não é mesmo?

Também não é incomum indivíduos participarem ativamente por um período, depois passarem por um período mais reservado ou isolado, depois voltando a participar de atividades coletivas. Muitas vezes estas fases se intercalam. Outras vezes um Gótico se torna, depois de alguns anos, um gótico "indoor" (caseiro), e nem mesmo seus vizinhos desconfiam.

Portanto, cuidado a quem você empresta açúcar: sua xícara pode voltar decorada com morcegos adesivos.

d) AUTONOMIA:
Paul Hodkinson publicou em 2002 uma aprofundada pesquisa sobre a subcultura Gótica na Inglaterra até o final dos anos 90. Sobre a questão do comércio e mídia, ele comenta:

"(...) eu tenho consistentemente levantado dúvidas sobre as várias perspectivas que assumem que a mídia e o comércio atuam como catalisadores para o colapso de agrupamentos substantivos. Em contraste, minha noção retrabalhada de subcultura considera ambos ( NT: mídia e comércio ) elementos cruciais das sociedades ocidentais contemporâneas como essenciais para a construção e facilitação de subculturas. Logo, por detrás das identidades, práticas e valores da cena gótica, jaz uma complexa infra-estrutura de eventos, bens de consumo e comunicação, todos completamente implicados em mídia e comércio."

E logo a seguir:

"(...) precisamos diferenciar entre diferentes níveis e escalas de mídia e comércio e, conseqüentemente, diferentes tipos de agrupamentos.(...) Devemos reconhecer que o envolvimento de um agrupamento com certas atividades lucrativas de forma alguma retira o significado de quaisquer atividades voluntárias que também contribuem para sua sobrevivência e desenvolvimento. (...)"

O comércio e a economia já existiam milênios antes do capitalismo.
O problema é o capitalismo selvagem, não a economia. Importante não confundir as duas coisas. As sociedades de cultura integrada usavam uma economia pra funcionar, mas a diferença é que o valor e o significado naquelas culturas integradas não provinha apenas da esfera econômica, sendo a esfera econômica apenas um elo na cadeia, um meio. E não um fim em si mesmo nem a origem de todo valor e sentido, como acontece em nossa querida pós-modernidade capitalista.

Assim, o que diferencia o remédio do veneno é a dosagem, não a substância:

"(...) nosso interesse específico aqui é distinguir entre formas internas ou subculturais de comércio e mídia - que operam quase exclusivamente dentro das redes dos agrupamentos específicos- e os produtos e serviços externos e não-subculturais, produzidos por interesses comerciais de larga escala interessados em uma base de consumidores mais ampla."

Assim, é importante notar que, ao invés de "desvalorizar" ou "viciar" o seu caráter subcultural, é exatamente a existência de uma rede de micro-comércio e micro-mídia dentro e a serviço da cena Gótica que viabiliza sua existência enquanto subcultura. E, como subcultura, também é esta estrutura que coloca a mídia e o comércio a serviço de um sistema cultural e de um grupo social- e não o contrário.

OBS: As citações entre aspas deste capítulo "Estrutura da Subcultura Gótica" são de Paul Hodkinson.

Voltar ao Indice