A Happy House in a Black Planet:
Introdução à Subcultura Gótica

04- A EVOLUÇÃO DAS ESTRUTURAS SUBCULTURAIS ONTEM E HOJE

Algumas características diferenciam as subculturas do passado das atuais, entre elas:

1)LONGEVIDADE
Até o final dos anos 1970 poderíamos ter a impressão que todas subculturas eram "juvenis" e fadadas a serem fenômenos passageiros substituídos por outros ao final de alguns anos. Mesmo os duradouros "Beats" haviam desaparecido. Mas hoje vemos que algumas subculturas possuidoras de sistemas de significação mais ricos permanecem ativas, organizadas e, principalmente, em atualização. E não se tratam de meros "revivals".

Estas subculturas permaneceram organizadas mesmo depois que a mídia de massa as "deixou" de lado, e sobreviveram a inúmeras modas que nas últimas duas ou três décadas surgiram e desapareceram. Alguns exemplos significativos são a subcultura Gótica, e as subculturas ligadas ao Hip-Hop ou ao Metal. A subcultura Gótica, por exemplo, permanece em atualização por mais de 20 anos, apresentando redes atualizadas de relações humanas e produção cultural. Nada indica que estas subculturas venham a desaparecer.

2)DESTERRITORIALIZAÇÃO
Algumas subculturas dos anos 1950, 60 e até 70 dependiam fortemente da proximidade física e geográfica dos seus membros para manter um vínculo que muitas vezes se tornava realmente um tipo de "gangue" ou de base hierárquica, ou "ainda círculo de informação" fechado. Mas aos poucos temos uma transição para outro modelo mais sustentável e durável. Se Teds, Rockers, Mods e Skin-Heads dependiam nas suas épocas de sua relação grupal e territorial, hoje temos subculturas urbanas que são até transnacionais ou "translocais".

A popularização da Internet no final dos anos 1990 levou a uma disseminação da informação sem dependência nem da mídia de massa mainstream, nem da "gangue", grupo ou fanzine underground. Com isso o acesso subcultural deixou de ser mediado por grupos que mantinham a informação como capital de controle ao acesso subcultural. Assim, vemos que a relação dos indivíduos de uma subcultura como a Gótica, em 2007, se dá muito mais com os conceitos e informações da subcultura e que estes são bastante homogêneos de país para país: um gótico italiano vai ter mais assunto com um gótico brasileiro do que com seu vizinho da frente não-gótico.

Em outras subculturas, todavia, a relação grupal e de hierarquia permanece até hoje, devido exatamente ao sistema de características dessas subculturas.

3) PARTICIPAÇÃO FEMININA
Se entre Teds e Rockers a participação feminina permanece muito próxima do papel tradicional da mulher na sociedade daquela época (1950/60), já com os Mods iniciais (aprox. 1964) temos uma estética e atitude que permite que as mulheres participem de várias formas, e não apenas como "acompanhante". A participação feminina pode ser com outras mulheres ou até sozinha. Paralelamente, subculturas mais "machistas" vão manter a mulher em uma posição mais tradicional.

No final da década de 1960 temos o surgimento dos SkinHeads e dos Hippies, que tem posições bem diversas em relação a participação feminina. Mesmo que existisse uma certa participação feminina, até hoje os Skinheads permanecem com uma estrutura basicamente masculina. Já os Hippies, surgidos em uma época em que as mulheres jovens conseguem mais espaço na classe média, apresentam modelos de mulher Hippie da mesma forma que a mulher Mod (e não mera acompanhante) em quantidades "normais".

Nos anos 70 cresce este movimento de participação feminina no Glam e Punk, mas ainda menos significativa. Posteriormente, nos anos 80, com o New Romantic e o Gótico, a participação feminina chega a um ponto quase de igualdade, principalmente no Gótico, que apresenta de 1984 até hoje uma dominância de valores socialmente considerados femininos. Nos anos 90 vamos ver algumas subculturas de afirmação feminina em que as mulheres tomam papel de destaque, como as Riot-Grrrls.

4)ACESSIBILIDADE E PARTICIPAÇÃO
O acesso a uma subcultura depende de uma combinação de disponibilidade de condições sócio-econômicas do indivíduo e da abertura da estrutura da subcultura. No passado a acessibilidade dependia de um contato com "grupos na rua" (o que, por exemplo, nos anos 50 condenava a participação feminina a ser periférica) ou mesmo rituais de passagem, ou pactos de irmandade.

Por outro lado, algumas das subculturas que sobreviveram mais tempo têm hoje uma alta acessibilidade, sendo que a participação e o começo do processo de conhecimento pode se dar até mesmo sem um contato direto. Isso torna os indivíduos menos dependentes de estruturas grupais limitadas pelo tempo e espaço. Isso evita que uma subcultura desapareça em uma região se um grupo de referência desaparece. A descentralização da informação oferecida pela comunicação via Internet nos últimos 10 anos ou mais permitiu que algumas subculturas chegassem a um nível de estabilidade e segurança que não tinham no passado.

Como desenvolveram tanto uma micro-mídia ou sistemas de comunicação subculturais, estas subculturas não são mais dependentes da mídia de massa (para a qual tudo é passageiro) nem apenas de grupos de controle e organização locais (que podem acabar).

5)DESJUVENILIZAÇÃO E DESCRIMINALIZAÇÃO
O fato de algumas subculturas como a Skinhead, a Metal ou a Gótica já durarem mais de 20 ou até 30 anos faz com que a participação deixe de ser um fenômeno "juvenil de transição ou adaptação" como nas subculturas dos anos 50 ou 60, ou de consumo de modas passageiras que são ainda hoje vendidas pela mídia de massa como "movimentos". Por exemplo, na subcultura Metal, encontramos muitos indivíduos de mais de 40 anos, com todas as idades intermediárias, o mesmo acontecendo com a subcultura Gótica, na qual encontramos indivíduos dos 15 até mais de 40 anos. Interessante notar que muitas vezes observamos em subculturas como a Gótica e a Metal, o fenômeno transgeracional, ou seja, pais e filhos participando juntos de Shows e Eventos e compartilhando gostos subculturais semelhantes. A proporção parece menor entre os mais velhos, mas é preciso notar que muitas vezes após os 30 anos muitos se tornam membros subculturais "indoor" ou menos visíveis.

Também vemos que a relação de subculturas com grupos juvenis ligados ao crime deixa de ser algo comum para se tornar exceção ou inexistente, exatamente pelos fatores citados nos itens 2 e 4, entre outros motivos.

Todos estes fatores somados mostram claramente que as estruturas subculturais são fenômenos em constante atualização, e que se diferenciam tanto das modas passageiras atuais, quanto de modelos de subculturas do passado que se mostraram fadados ao desaparecimento.

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