A Happy House in a Black Planet:
Introdução à Subcultura Gótica
03- A HOMOLOGIA SUBCULTURAL, SUA FLEXIBILIDADE E EVOLUÇÃO
"...as civilizações
antigas não tinham arte nem cultura, tal como as entendemos hoje. Isso
quer dizer que a estrutura moderna, feita de esferas separadas e independentes,
é totalmente estranha às sociedades antigas.(...) as sociedades
pré-modernas...não tinham uma cultura, eram uma cultura. (...)
a produção era estética, a estética era religiosa,
a religião era política, a política era cultural, a cultura
era social, e assim por diante.(...)Em uma sociedade como cultura- que tinha
que integrar também a morte- a arte passava a ser necessariamente um
componente da vida diária." (Robert Kurz, 1998)
POR QUE DIABOS UM ESTILO ME ATRAI?
Por que gosto mais de um poema do que de outros?
Perguntas como "o que mantém a coesão de uma subcultura"
ou "o que faz com que uma determinada subcultura atraia algumas pessoas
e não outras" geralmente são difíceis de responder.
Para entender melhor estas e outras questões que envolvem as relações
entre estilo e significado nas subculturas, neste texto abordamos o conceito
de "homologia subcultural" desenvolvido no livro "Subculture:
the meaning of style" de Dick Hebdige, 1979.
Observando o funcionamento da homologia em outras subculturas, podemos apreender instrumentos que nos ajudam a entender a relação entre estilo, estética, valores e significados na subcultura Gótica ou em qualquer outra.
"Paul Willis (1978) aplicou a palavra "homologia" a uma subcultura no seu estudo dos hippies e motociclistas, usando o termo para descrever a relação simbólica (symbolic fit) entre os valores e o estilo de vida de um grupo, sua experiência subjetiva e as formas musicais que este grupo usa para expressar ou reforçar o que considera importante. No texto "Profane Culture", Willis mostra como (...) a estrutura interna de qualquer subcultura é caracterizada por uma extrema ordenação: cada parte é organicamente relacionada a outras partes e é através da adequação entre elas que os membros de uma subcultura entendem o sentido do mundo." (Dick Hebdige, 1979)
Sem dúvida
essa ordenação é flexível e acontece uma evolução
ao longo do tempo, caso a subcultura não deixe de existir. O próprio
Hebdige comenta que essa relação homológica entre as partes
simbólicas do estilo subcultural e seu significado não é
fechada e fixa para cada membro de uma subcultura.
UM "NÃO" ESPECÍFICO E CRIATIVO
Pelo contrário, os significados subculturais se constituem muitas vezes
como uma "recusa específica" que não dita uma regra
de comportamento. Mas, ao recusar alguns aspectos do mundo, acaba por salientar
outros. E esta escolha, como veremos adiante, pode ser feita de formas bem diversas.
Patrice Bollon, em "A Moral da Máscara", também aborda
a questão da recusa ao comentar sistemas estéticos:
"Mais do que sistemas de normas, são sistemas de tabus. Podemos dizer o que absolutamente não seriam; mais difícil seria dizer o que são.(...) Seu código...não estabelece uma sensibilidade, um significado, ou uma ideologia; ele delimita um espaço de sensibilidade, uma área de significados, um feixe de atitudes, uma constelação de idéias no interior dos quais todas as modulações são permitidas, ou até requisitadas.(...) A meta foi atingida: criar uma concepção do mundo, circunscrever uma visão passível de evoluções que permitam a expressão pessoal.(...) Com efeito, o que as (modas e culturas) aproxima é que nenhuma delas oferece "respostas" às perguntas: elas se contentam em delimitar espaços onde simplesmente essas perguntas não são mais feitas." (Patrice Bollon, 1990)
Essa concepção poderia ser aplicada também ao estilo em uma subcultura ou de uma cultura tradicional (ex: estilo das vestimentas egípcias em relação à sua cultura, etc).
Este "espaço de sensibilidade, uma área de significados, um feixe de atitudes, uma constelação de idéias" são uns, e não quaisquer: diferente em cada subcultura, e é esta "concepção de mundo" que define cada subcultura.
CONSTRUÇÃO
DE UMA MITOLOGIA: MEU REINO POR UM SENTIDO!
Ao mesmo tempo, os símbolos, rituais, objetos, comportamentos, vocabulário,
etc, constroem um tipo de mito ou sistema através do qual o membro da
subcultura se vê no mundo e vê o mundo como o imagina. Através
da escolha desta ou daquela subcultura, o indivíduo escolhe um sentido
e significados através dos quais ele olhará e vivenciará,
pelo menos em alguns momentos, o mundo.
Hebdige explica como os objetos de estilo de uma subcultura são em grande parte equivalentes das questões centrais, auto-imagem coletiva e estrutura social desse grupo subcultural.
Nos objetos os membros podem ver seus valores centrais refletidos. O autor exemplifica comentando os Skin-Heads: "As botas, os suspensórios e o cabelo raspado só foram considerados apropriados e conseqüentemente significativos porque eles comunicavam as qualidades desejadas: dureza, masculinidade e a classe trabalhadora local. Desta forma, os objetos simbólicos - roupa, aparência, linguagem, ocasiões de ritual, estilos de interação, música- foram feitos para formar uma unidade com as relações, situações e experiência do grupo" (Hall, 1976).
Já ao comentar os Punks, o autor comenta que eles se vestem como xingam, e sua música se parece com sua roupa e sua visão de mundo: urgente, fragmentada, uma colagem agressiva de pedaços de símbolos de um mundo sem sentido. " Havia uma relação homológica entre as roupas toscamente remendadas, o cuspir, o vomitar, o formato dos fanzines, as poses insurgentes e a música conduzida freneticamente."
"EU FALO
ATRAVÉS DE MINHAS ROUPAS"
O "discurso" não é apenas aquilo que é dito através
de palavras enunciadas ou escritas. "Discurso" é também
o que um objeto quer dizer, seu "sub-texto" não dito. E este
objeto pode ser uma roupa, um comportamento, um acessório, uma foto,
um quadro, uma peça, etc.
Hebdige nos explica que há dois tipos de apropriação subcultural dos objetos. Um tipo que se concentra no ato de transformação do objeto simbólico (roupa, cabelo, música, literatura, ícones religiosos ou ideológicos, etc). O outro tipo se concentra na reverência do significado literal do objeto simbólico.
"A suástica estava sendo usada para significar o quê? ( ) Convencionalmente, no que interessava aos ingleses, a suástica significava "inimigo". Além disso, no uso dos punks, a suástica perdeu o seu significado histórico "natural" no século XX: nazi-fascismo.(...) a suástica era usada (pelos punks) por que era garantia de chocar. Um punk entrevistado pela Time Out (1977) por que ele usava suástica respondeu:- "os punks apenas gostam de ser odiados".
Ao contrário dos punks, no caso de um Neo-Nazista, a suástica é usada no sentido tradicional e literal: respeitosamente.
Assim, vemos que
um mesmo símbolo ou tema pode ser adotado com significados diferentes,
ou até opostos, por grupos sociais diferentes. Tomarmos como referência
o sentido original da suástica usado pelas religiões antigas seria
um total equívoco no entendimento do uso feito dela pelos grupos que
comentamos acima.
CUIDADO! DESLIZAMENTO DE SIGNIFICANTE NA PISTA...
"
quando aquele objeto é colocado dentro de um conjunto totalmente
diferente, um novo discurso é constituído, uma nova mensagem é
veiculada." (Clarcke, 1976, em Hebdige, 1979)
Por exemplo, os Góticos, desde os anos 1980, adotam a cruz e outros símbolos com um deslizamento de sentido desses objetos, inserido-os em um novo sistema simbólico: o sistema da subcultura Gótica. Podemos dizer que os Góticos fizeram o mesmo até com elementos de estilos literários e musicais, vestuário, maquiagem, etc.
No sistema Gótico,
a cruz vai servir de símbolo que remete a todas as coisas socialmente
relacionadas à cruz: sofrimento do inocente, paixão de cristo
("stigmata martir"), morte, cemitérios urbanos, etc. Da mesma
forma que punks não são nazistas ao usar uma suástica,
Góticos não usam cruzes por que são cristãos (apesar
de alguns serem) nem usam ankhs por que pretendem ser egípcios
Assim, vemos que o que define a atitude e o significado de uma subcultura não
é apenas o objeto, símbolo ou tema cultural do qual ela se apropria.
O mesmo tema ou objeto pode gerar significados e visões de mundo muito diferentes e até opostas, dependendo da forma como uma subcultura se apropria deles, se de forma "respeitosa e literal" ou de forma "transformadora e recontextualizada". O significado geral vai ser definido pelo todo do sistema simbólico.
DE PROFUNDIS
NA SUPERFÍCIE:
Assim, divisões artificiais entre "superficial" e "profundo"
aqui não fazem muito sentido. Sem o seu estilo, tanto uma subcultura
como uma escola artística deixa de ter significado. O que seria da pintura
Expressionista sem as pinceladas largas e a proporção emocional?
O que significaria a poesia cubista se escrita em sonetos? A arquitetura Bauhaus
não seria Bauhaus se usasse ornamento Barroco. E assim por diante.
Como já vimos, um mesmo significado pode ser aplicado a vários
símbolos, ou o mesmo símbolo, por apropriação, ser
utilizado para outros significados. Em uma subcultura, o significado de cada
objeto apropriado por ela é recriado pelo conjunto dos objetos de seu
sistema.
Cada item de um sistema subcultural muda e reforça o significado dos outros itens, e o conjunto forma um estilo significante e coerente como um todo, apesar do "ruído" e espaço "em aberto" que existe em qualquer "discurso poético" no qual cada indivíduo pode interagir individualmente com o significado, acrescentando elementos pessoais.
A COZINHA GÓTICA
NUM RESTAURANTE PERTO DE VOCÊ
Paul Hodkinson, em seu livro "Goth: Identity, Style and Subculture",
2002, depois de rejeitar um conceito mais rígido e mecânico de
homologia, escreve:
"Muitos integrantes sentiam que havia algum tipo de ligação
entre seu estilo e certas qualidades gerais que eles compartilhavam com os demais
góticos, incluindo criatividade, individualidade, liberalismo e compromisso..."
Em outros capítulos Hodkinson faz uma extensa descrição das características recorrentes e perenes que registrou na cena Gótica inglesa. Outros autores comentando a cena Gótica francesa (Antoine Durafour), norte-americana, inglesa ou mundial (Nancy Kilpatrick, Gavin Baddelley, Mick Mercer, etc) ressaltam as mesmas características centrais e estruturantes que encontramos entre Góticos brasileiros.
Cozinheiras diferentes preparam a mesma receita com um toque especial e adapta-se aos condimentos mais fáceis de achar na sua região. Da mesma forma, as diferenças locais entre as diversas cenas Góticas mundiais se limitam a ressaltar algum ponto que faz mais sentido devido à história, geografia e condições sócio-econômicas de cada uma delas. Mas sem descaracterizar os significados essenciais que as definem como parte da subcultura Gótica.
Ressaltamos que não existe homologia "fechada" ou "imutável".
ABÓBORAS
NÃO FRAGMENTADAS
"Quantos mais grupamentos subculturais em uma sociedade, maior a liberdade
potencial do indivíduo.", escreveu Alvin Tofler em "O Choque
do Futuro", há mais de 30 anos.
Sem dúvida alguém pode se fantasiar de gótico ou de abóbora
no halloween, e isto não ter muito significado para aquela pessoa. Os
significados só se tornam aparentes em um determinado contexto.
Assim, no contexto da subcultura Gótica, é perceptível uma relação de homologia entre a estética do estilo e o discurso que verificamos na produção de canções, textos, imagens, pinturas, esculturas, comportamentos humanos em relações sociais, linguagem, mitos, etc, e uma certa visão de mundo expressa abertamente e de forma recorrente nos últimos 25 anos.
Sem dúvida estes significados não são fechados, da mesma forma que as imagens de um poema não são. Cada poema tem um feixe de significados interligados. Mas apesar de vasto, este feixe não é infinito.
No caso de um poema, seus significados só são separáveis de sua forma e estilo com a sua destruição. No caso de uma subcultura que continua ao longo de muito tempo, parece que novos versos são possíveis e alguns vocábulos atualizáveis, sempre variando sobre o sentido original. E às vezes uma estrofe gera um novo poema, mesmo que o texto original siga um rumo paralelo
Finalmente, respondendo à pergunta do começo deste texto, podemos dizer que um estilo nos atrai por que de alguma forma - provavelmente não consciente - reconhecemos afetivamente em seus símbolos algo que buscamos, talvez a simulação ou a realização de um dos artigos mais raros atualmente: o sentido.
Quando nos sentimos atraídos por uma subcultura, muitas vezes intuitivamente ou apaixonadamente, isso acontece geralmente porque as representações da visão de mundo desta subcultura englobam, combinam parcialmente ou produzem uma integração na nossa visão de mundo pessoal.