A Happy House in a Black Planet:
Introdução à Subcultura Gótica
01- SUBCULTURA X OUTROS BICHOS
Este texto é um dos textos mais chatos do livro. Se você tem familiaridade com os termos do título, pode pular e partir para a parte mais divertida. Mas se você cair na besteira de ler esta parte, não desista do livro: o resto dele é bem mais interessante.
Aqui se pretende
apenas definir em linhas gerais alguns termos que serão usados ao longo
deste livro. Não é nossa intenção analisar em profundidade
cada um deles, apenas apresentá-los ao leitor para facilitar sua leitura
nos próximos textos.
O QUE É
CULTURA?
Usamos aqui o termo "cultura" no seguinte sentido sociológico:
cultura é "um todo complexo que abarca conhecimentos, crenças,
artes, moral, leis, costumes, e outras capacidades adquiridas pelo homem como
integrante de uma sociedade" (1). Importante não entender "cultura"
aqui no sentido limitado de "erudição" ou "cultura
letrada".
Muitas culturas são formadas a partir da fusão das culturas de outros povos, gerando um novo padrão. Muitas culturas possuem no seu interior "subculturas".
O QUE É
SUBCULTURA TRADICIONAL?
Subcultura pode significar uma "parte de uma cultura" que possui um
conjunto diferenciado de "valores, crenças, normas e padrões
de comportamento, portanto um modo de vida compartilhado por parte de uma população"(2).
Podemos dar como exemplo as subculturas regionalistas tradicionais do Brasil,
como a nordestina ou a gaúcha. Elas estão inseridas na sociedade
brasileira e em sua cultura, mas, ao mesmo tempo, possuem um sistema de significação
e representação do mundo próprio e único.
O QUE É
SUBCULTURA URBANA E TRANSLOCAL?
Com a industrialização, urbanização e globalização
das informações, a situação das culturas mudou bastante.
Principalmente na segunda metade do século XX, com o aparecimento da
televisão e outros métodos de radiodifusão e, mais tarde,
com o surgimento da Internet.
Temos um cenário no qual a cultura das zonas urbanas industrializadas tende a perder características locais e a adotar características de uma cultura global economificada: a cultura da sociedade de consumo contemporânea. Neste contexto, depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), começam a surgir algumas subculturas urbanas, como os Beats, Rockers, Mods, Skinheads, Hippies, Glam-Rockers, Punks, Góticos, etc.
Algumas delas desapareceram em pouco tempo, mas outras permaneceram e mantiveram coerência interna por um longo tempo. Hoje estas subculturas apresentam diversas características, entre elas, não serem limitadas geograficamente: a translocalidade. Essa e outras características da subcultura Gótica serão analisadas com mais atenção no capítulo 6- Estrutura da Subcultura Gótica.
Da mesma forma que as subculturas tradicionais ou regionais, o participante de uma subcultura translocal continua participando, de alguma forma, da cultura dominante local.
O QUE É
BRICOLAGEM SUBCULTURAL?
Levi-Strauss (3) comenta que a bricolagem é a montagem de um novo "jogo"
a partir do campo limitado pelas peças pré-existentes.
Bricolagem é um termo usado para explicar como uma cultura constrói seu sistema simbólico a partir de elementos pré-existentes e à disposição naquela cultura ou, eventualmente, herdados ou tomados de alguma outra cultura. Por isso, um mesmo símbolo vai ter, em culturas diferentes, significados diferentes. Mas apesar de diferentes, estes significados atribuídos não são aleatórios: constituem um sistema de significado que expressa, simbólica e esteticamente, a visão de mundo e modo de vida de um determinado grupo social. Ao estudarmos os mitos do mundo inteiro vemos como eles expressam os valores de suas sociedades de origem.
Portanto, para entendermos o que significa "a águia" em determinada cultura ou subcultura, não adianta apenas estudarmos em profundidade as "águias" em geral. Devemos, isto sim, olhar para o modo de vida e convivência daquele grupo subcultural, e verificar em que posição simbólica ele colocou a águia em seu sistema simbólico.
Uma subcultura
ao se apropriar de algum item de outra cultura ou subcultura vai, provavelmente,
ressaltar algum aspecto que, apesar de poder estar contido nos sentidos gerais
daquele item, não é necessariamente o que se destacava no sistema
cultural original. Por exemplo, o Ankh na subcultura Gótica tem significados
ressaltados pelos outros elementos do sistema subcultural Gótico, que
não são os mesmos elementos ressaltados no sistema da religião
e cultura Egípcia, origem do Ankh. Portanto, a origem não explica
totalmente o uso atual e, às vezes, pode ser diverso.
O QUE É HOMOLOGIA?
Homologia é o estudo das coisas homólogas. Coisas homólogas
seriam aquelas que, apesar de diferentes na forma, guardam uma relação
de significado, ou, ainda, a relação entre um conceito ou idéia
e suas formas e símbolos.
Alguns exemplos de homologia. A relação homóloga entre
a música punk, suas roupas e a estética de seus fanzines, todos
igualmente remetendo a idéias de urgência, fragmentariedade e desrespeito
a ordem. Ou a relação homóloga entre o visual militar ou
proletário de grupos skinheads e sua ideologia baseada em disciplina
e respeito a valores tradicionais.
Muito importante
salientar que a homologia em um sistema cultural ou subcultural não é
uma relação nem fechada nem estática. De forma comparável
à língua de um povo, ela evolui de acordo com a sua utilização
pelo grupo social e também tem um espaço grande de "ruído"
que permite a sua renovação coerente e a criatividade dos indivíduos.
No capítulo 7-item C-Absorção
de Elementos de Estilos Relacionados, isso ficará mais claro.
Em um estudo (4) sobre as subculturas urbanas inglesas posteriores a Segunda
Guerra Mundial, o conceito de bricolagem subcultural é usado para explicar
o modo de construção de sistemas simbólicos homólogos
nas subculturas urbanas, como os mods, punks, rastas, skinheads, etc. No capítulo
3- A Homologia Subcultural, sua Flexibilidade e Evolução
comentaremos mais sobre isso.
(1) definição de Edward B. Taylor, em "Introdução
à Sociologia"
(2) Sebastião Vila Nova, em "Introdução à Sociologia"
(3) Claude Levi-Strauss, em "O Pensamento Selvagem"
(4) Resistence Through Rituals- Youth Subcultures in post-war Britain- edited
by Stuart Hall & Tony Jefferson