GERAÇÃO BATCAVE (por Cledson Bauhaus)

Intro


Esse artigo foi publicado originalmente no blog MODAnaMÚSICA na coluna na qual sou responsável chamada BatCavers. Ele é parte integrante da pesquisa “Grotescos na web: a subcultura gótica e a comunicação digital”, pesquisa de nível acadêmico iniciada em 2008 na faculdade UnisaNt'Anna. Neste artigo procurei introduzir um pouco os assuntos que iria abordar na coluna. Geração BatCave faz referência não só a um pequeno grupo de pessoas da cultura musical underground dos anos 80 – influenciadores do rock gótico, mas também pode representar uma camada mais ampla, composta por nerds, artistas, amantes da cultura pop, desenhistas de histórias em quadrinhos, entre outros, e é justamente essa relação que pretendo demonstrar explicando resumidamente as ideias contidas nessa expressão criada.

Parte 1: Aplicação do termo nas culturas Pop e Underground

Detective Comics #27, DC Comics. Estados Unidos da América, 1939.


Primeira aparição de Batman nas HQs em Detective Comics #27 da DC Comics

É nessa época que é publicado a primeira aparição do mais sinistro e curioso herói das HQs americanas: o Batman. Criado Bob Kane e Bill Finger, o novo herói surge após o grande sucesso do Super Man e a necessidade mercadológica de explorar um novo personagem. Batman é o alter-ego (persona) do ricaço Bruce Wayne, que se veste de homem-morcego para combater o crime na nebulosa Gotham City, como forma de vingança pela morte dos seus pais. Fã da cultura vampiresca, especialmente das estórias ligadas ao personagem conhecido como Drácula, Kane imaginou um herói baseado no mesmo, com roupas negras, capa vermelha e ligado ao tema dos morcegos, mas foi Finger quem deu ao personagem o formato pelo qual ficaria consagrado.


A Batcaverna

Para esconder sua identidade ao mesmo tempo em que atua como Batman, Wayne cria a Batcave (conhecida como Batcaverna nas HQs daqui do Brasil) que é o seu quartel-general, localizada em uma gruta abaixo dos alicerces de sua mansão. No link abaixo é possivel conferir um vídeo com a primeira aparição da Batcaverna na TV tornando mais público e acessível esse mito.

The Batcave:
http://www.youtube.com/watch?v=7mzaTSGBN4U


The BatCave Club. Lodres, 1982.

Marca gráfica do BatCave Club

Arte underground feita a mão.

Nesse ponto do artigo não me atreverei a detalhar precisamente os movimentos musicais citados, pois não é o foco nesse momento. Sugiro à quem desejar conhecer mais a respeito dos inumeros estilos musicais e nomenclaturas cultuados dentro a subcultura gótica o seguinte glossário que possui importantes informações sobre o assunto: Glossário de Estilos Musicais Relacionados à Subcultura Gótica

Com o enfraquecimento do movimento punk no final dos anos 70, surgem na cena underground novas camadas e propostas musicais ainda com suas raízes no punk, mas distanciando-se quanto a sua temática principal e adicionando novos experimentos sonoros. Nos Estados Unidos, por exemplo, temos a cena “Death Rock”, movimento musical que é representado, por exemplo, pelas bandas: Christian Death, 45 Grave, Super Heroines, Shadow Project, Cinema Strange, etc, e na Inglaterra temos o “Post Punk”, com as bandas: Alien Sex Fiend, Joy Division, Bauhaus, Siouxsie and The Banshees, The Cure, etc. De uma forma geral, as abordagens dessas bandas se distanciam do punk por sua forma mais poética e literária de expressar a sua mensagem, buscando influências na literatura, cinema de horror, temas existencialistas, morbidez, surrealismo, performances teatrais, etc. No campo sonoro, aqui se experimentou muito, onde por influências subjetivas dos músicos, promoveu uma grande fragmentação em novos estilos musicais – como pôde ser observado no glossário citado.


A esquerda - Rozz Willians do Christian Death. A direita - Nick e Christine Wade do Alien Sex Fiend.


O som Post Punk e a música com atmosfera assustadora receberam dos europeus o termo “batcave” por uma influência especial localizada no país: o The BatCave Club. Ele foi um bar noturno em Londres, que em 1982 quando abriu as portas, especializou-se em new wave e glam rock, focando mais tarde no rock gótico. Ele é considerado o local de origem da subcultura gótica inglesa e emprestou o termo "batcaver" usado para descrever os fãs do rock gótico e death rock em todo o mundo por ser um dos mais famosos locais de encontro para os primeiros góticos.

Assista os vídeos abaixo com fragmentos do documentário “The BatCave Club” e conheça um pouco mais “proximo” o que foi esse marco nesta cena urbana, história do The Batcave Club e a cultura local dos anos 80.

Vídeo 1:
http://www.youtube.com/watch?v=Wky5Y7KyHLU&feature=related

Vídeo 2:
http://www.youtube.com/watch?v=T3UKqdWCKS0&feature=player_embedded#at=33


Parte 2: Harmonia ou Paradoxo?


Ao ter uma breve noção da aplicação do termo batcave em diferentes situações você pode levantar pelo menos uma questão acerca do assunto: harmonia ou paradoxo? Já te respondo, primeiro vamos às comparações:


Marcas gráficas: Batman x The BatCave Club. Leve semelheança?

A mais básica a começar é pelos símbolos. Se você observar bem, perceberá que não se trata apenas de imagem de morcego na segunda batcave, mas sim uma cópia descarada da marca gráfica do Batman. Isso não é muito dificil de perceber e é bem comum esse tipo de referência na subcultura gótica nas letras das músicas e visuais de seus membros, onde personagens, comportamentos e cenários são extraídos da literatura e cinema de horror e transportados para o universo das canções e atsmosfera musical dark. Um exemplo clássico disso é a canção Bella Lugosi's Dead de 1979 do grupo Bauhaus, que faz referência a estrela do cinema de terror “Béla Lugosi” (1882-1956), que imortalizou a imagem clássica dos filmes de Drácula.


Veja a tradução da letra da música:

Bela Lugosi Está Morto

Branco em mantos negros de branco translúcido
De volta ao passado
Bela Lugosi está morto
Os morcegos deixaram a torre do sino
As vítimas foram sangradas com linhas de veludo vermelhas na caixa preta
Bela Lugosi está morto
Bela Lugosi está morto
Morto-vivo morto-vivo morto-vivo
Morto-vivo morto-vivo morto-vivo
A fila de noivas virgens passou por sua tumba
Coberta de flores mortas pelo tempo desolado no desabrochar mortal
Sozinho numa sala escura, o conde
Bela Lugosi está morto
Bela Lugosi está morto
Bela Lugosi está morto
Morto-vivo morto-vivo morto-vivo
Morto-vivo morto-vivo morto-vivo
Morto-vivo
Oh, Bela! Bela é um morto-vivo

Veja também esse link com algumas curiosidades sobre a canção:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Bela_Lugosi's_Dead

No segundo ponto a observar, temos a vida social dos batcavers e do próprio Bruce Wayne. Todos possuem uma vida normal (ou tentam): trabalham, estudam, fazem amor, têm amigos, possuem família, entre outros, e é na batcave onde incorporam as suas “personas”, cada qual com a sua finalidade. Isso significa que somente na batcave eles podem ser personagens? Claro que não, mas é nela o seu principal local de repouso como tal e interação com as atividades relacionadas à sua persona e convívio com o público seleto.


Personas ou máscaras é um conceito da psicologia

Persona deriva-se da palavra latina para a máscara usada por atores gregos na época clássica. Em psicologia, “persona” é a máscara (ou face) que um indivíduo utiliza para confrontar o mundo. Ela pode se referir à identidade sexual, um estágio do desenvolvimento, tal como a adolescência, um status social, um trabalho ou profissão. Tanto o personagem fictício das H.Qs norte americanas, como os personagens incorporados por músicos e seus públicos, se encontram na batcave e estão todos unidos pelo mesmo conceito psicológico e social que é a persona. Logo, não consigo observar um paradoxo nas duas situações onde o termo batcave foi aplicado e vou mais adiante: acredito que todos possuem a sua “batcave pessoal”, seu refúgio particular que pode ou não ser compartilhado socialmente.

Breve Conclusão


Como pode ser observado, o termo batcave tem forte influência nas culturas apresentadas, inspirando tendências culturais e mercadológicas não só na moda e na música, mas em diversos segmentos. Basta observar o enorme número de mercadorias explorando o Batman (coitado), filmes, personagens que seguiram a mesma fórmula “dark” de criação, entre outros. Um exemplo bem próximo aqui em São Paulo era a loja Batcave (fechada há pouco tempo) localizada na Galeria do Rock em São Paulo, que vendia artigos de moda, musica, arte e acessórios voltados ao público “dark”. Além dela, se pesquisar na web, poderá encontrará outros projetos, lojas, fanzines, blogs, etc, muito parecidos e batizados pelo mesmo nome.

Finalizo a explicação do nome desta coluna e projeto particular (a BatCavers) que fala da “Geração Batcave” composta de assuntos da cultura underground e pop transportados no decorrer dos tempos por milhares de pessoas que produziram cultura e influenciaram toda uma geração, seja na moda ou na música. Neste espaço você encontrará histórias em quadrinhos, artes plásticas, cinema, música, literatura, e o que mais vier à tona das profundezas da minha batcaverna. Seja bem vindo ao mundo de cultura, amor ao próximo, respeito e paz. Vida longa aos Batcavers.


Autor: Cledson Bauhaus. Abril de 2011.


Blog do autor: www.cledsonbauhaus.wordpress.com
Fonte: www.modanamusica.com

Fontes e imagens:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Batman
http://www.imagensgratis.com.br/imagens/original/foto-de-batcave.jpg
http://www.superherostuff.com/batman_detective_comics_27.jpg
http://www.worleygig.com/2010/07/the-birth-of-londons-batcave-club/
http://letras.terra.com.br/bauhaus/3391/traducao.html
http://eudeveria.wordpress.com/2008/10/23/mascaras-elas-estao-em-todaparte/


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