1. O Plastique Noir está preparando o seu primeiro álbum, intitulado previamente de "Dead Pop". O que o público pode esperar do disco?
Airton - Um resumo da primeira etapa criativa da banda. Essa idéia engloba inclusive as inéditas que não saíram nos discos anteriores (Offering e Urban Requiems), porque o processo criativo que as originou foi mais ou menos o mesmo. No começo o Márcio fazia quase tudo sozinho, mas gradativamente eu e o Danyel fomos tomando uma participação maior nas iniciativas de composição. Hoje eu diria que as nossas coisas funcionam na base de jams, e por vezes o Márcio tem aparecido como o arranjador final de um miolo inteiro já feito antes. Tudo está mudando, até o Max escreve letras agora, por sinal a melhor de todas que o Plastique já cantou é dele, na futura faixa de trabalho "Inconstancy". O disco tem esse título porque evoca a idéia de que a indústria como conhecíamos morreu. O Radiohead chegou ao cúmulo de dar de mão beijada o novo disco pelo site. Internet é tudo e ela já nos ajudou pra caralho. Nós também já sabemos desde já que não vamos ganhar dinheiro com as vendas do álbum quando for lançado. Nosso grande interesse na prensagem é desafogar nossos esforços com a parte de distribuição, o que sempre foi um saco de se fazer no esquema punk DIY, como vinha acontecendo até então. E, no fim das contas, a gente é popzão mesmo, nunca escondemos e até nos orgulhamos disso. O Plastique quer mais é ver a pista cheia dançando com refrões assobiáveis. Ainda que seja um pop com um pé nas coisas ocultas por trás da essência da vida e da morte.
Mazela - Som essencial
e resumidamente Plastique, uma banda ambiciosa e envolvida num processo de criação
intempestivo pra engrossar o caldo godo com elementos diversificados - não
temos pudor em crescer... Um Plastique Noir mais amadurecido que espero que
apreciem.
2. Vocês podem falar um pouco dessas mudanças pelas quais a banda
irá passar?
Airton - Elas não estão muito visíveis no álbum em si, apesar de as inéditas terem um quêzinho de diversidade a mais do que alguns remixes de antigas presentes no track list, sem falar em "Inconstancy", que soa muito como as tendências mais atuais do pós-punk, rotuladas ignorantemente por alguns como "dark indie". A faixa destoa do resto das músicas com certeza - por isso talvez a escolhemos como carro-chefe e para o clip. Mas vamos liberar inteirinho um EP virtual, e apenas virtual, mais ou menos simultaneamente ao lançamento do álbum. Nesse EP terão coisas que deixarão muito morceguinho com interrogações na cabeça. Eu e Danyel temos escutado umas coisas escandinavas pouco conhecidas e muito interessantes, ultimamente. O Max anda numas synth pop... Acho que vai sair coisa boa dessa salada. Parte da culpa de tudo isso é essa catequese gótica chata para caralho que têm rolado por aí, internet afora, principalmente. No que removeram o véu que cobria o apaixonante lado oculto da coisa, acabaram transformando o gótico num clubinho com manual sociológico vendido na porta. Triste isso, lamentável. Resultado: peguei um ranço horroroso pela cena (mundial, inclusive), mas não pela cultura em si, a qual amo e sempre amarei. Não tem nada pior do que fazer um determinado tipo de música formatada de um jeito tal pela qual as pessoas já esperam de antemão. Por mim, os termos "gothic", "dark" e afins, saem desde já de todos os releases, notas e declarações da banda até segunda ordem. O que não quer dizer necessariamente que as possíveis e até evidentes associações ao obscurantismo com nosso som sumirão também.
Mazela - Queremos
apenas fazer boa música de orientação obscura de forma
apaixonada sem nos atermos a algo pré-estabelecido. Saímos do
deslumbramento que estagna muitas bandas, que as faz fazer repetição
e não diferença. Upgrades são naturais e necessários
pra quem quer ir pra frente...
3.Como surge a inspiração pras letras e músicas?
Vem do nada ou vocês chegam ao ponto de planejar isso minimalistamente?
Mazela - As duas coisas. Antigamente, quando eu era menos ocupado, ficava tocando como um louco, até umas 8 horas por dia, sempre tentando bolar alguns riffs, harmonias e melodias vocais; daí tentava escrever letras que se encaixassem no clima exigido pela música surgida. Adoro o conceito deleuziano de "imagem de pensamento", acho que penso assim, de forma bem imagética e simbolista - e caótica! Mas também escrevia muita coisa inspirada em experiências pessoais (exageradas propositalmente) e também ao assistir filmes, ler coisas... Mas inspiração e intuição não têm hora de ocorrer. Não há uma "fórmula mágica", é pura ralação... Daí, muitas letras e coisas ficam arquivadas para futuramente as retomarmos se for o caso. Não temos o péssimo hábito de trabalhar em qualquer coisa que surge; tem que ser realmente promissor e qualitativo pra coisa decolar no ar noir. Nos cobramos muito pra sempre transcendermos.
Airton - Não acredito muito nessa matreira entidade de macumba chamada "inspiração" que, dizem, baixa no pai-de-santo quando quer e ele menos espera. Sou mais devoto de outra, chamada transpiração.
3. Vocês são oriundos de uma das grandes capitais brasileiras, conhecida pelo sol forte todo ano, as belas praias, o forró e a cultura regional... Até que ponto isso afeta vocês como pessoas e músicos?
Airton - Forró
e a sensaborona "cultura regional nordestina" (seja lá que
merda isso signifique) não me afetam. Ignoro, apenas. Não me sinto
nem um pouco obrigado a enautecer Patativa do Assaré, xilogravura, literatura
de cordel e essas merdas todas. Nasci em SP, morei em 3 grandes capitais do
país e já dei um tempo no velho mundo também, sendo que
Fortaleza foi onde parei por (bem) mais tempo. Vivi a vida inteira cercado por
prédios, semáforos, outdoors e monóxido de carbono. São
coisas assim com as quais meu coração dialoga para criar. Praia,
nada contra. Até moro em uma hoje, semi-deserta. Acho bonito...
Mazela - Sim, é uma grande cidade, mas ainda tem muito de província,
cidadela de muros baixos onde você peida e do outro lado da city já
sabem. Fui nascido e criado em Fortaleza e apesar dos pesares eu gosto daqui,
porém ando de saco cheio e a querer novos ares andando por aí
com a banda e meus estudos... As pessoas são bem receptivas, as amizades
fluem com facilidade, mas ainda reina certo caipirismo: cansei de ser chamado
de gay ou "doido" por usar maquiagem e afins quando o gótico
não era modismo mundo afora - e no cotidiano nós todos saímos
normalmente, "à paisana", não precisamos mostrar pra
todo mundo que somos caras que flertam com a obscuridade - isso deixo pros teenagers
empolgadinhos. O sol é forte mesmo, pra quem não é afeito
a isso fica foda, sufocante - daí é fácil de entender o
número elevado de dementes daqui: ensolação, huhuhuh. O
forró nunca me interessou, a não ser coisas roots, não
as bandas-armação que entopem a cidade com sua merda sônica
pra playboy matuto colocar num som brutal de carro e não nos deixarem
conversar! Fico puto! Sempre tive um espírito cosmopolita (mas sem ser
colonizado) e essa de regionalismo não é a minha, apesar de achar
o maracatu daqui bem fúnebre e interessante... E adoro as belas praias!
Quer algo mais legal do que num dia entediante você ir pra uma praia com
água quentinha, sentar na sombra com seu violão, tomar zilhões
de cervas, fumar uns baseados e admirar as gatas? A vida tem um infinidade de
cores para além do negro...
4. Depois de 2 anos de banda, qual o balanço que o Plastique Noir faz desse seu belo começo? E o que esperam do futuro (anseios, expectativas, temores...)
Airton - Foi bom. Não diria ótimo. Às vezes eu tenho a impressão de que podíamos ter corrido mais, feito mais. Sou meio neurótico, nunca me permito pensar em qualquer momento que tudo está correndo às mil maravilhas. A impressão que fica é sempre a de que, se eu me conformar e parar pra descansar, a coisa vai perder a chance de ser ainda melhor do que aparantemente já é. Não apenas por isso, é preciso admitir que esses dois anos foram muito oscilantes. Tivemos momentos maravilhosos, como o começo (e boa parte) do ano de 2006, quando lançamos o Offering e rapidamente fomos adotados pelo Noise 3D Club, pintaram os primeiros feedbacks na net e convites para show fora... Junho daquele ano foi o ápice, época do Ponto.CE aqui, o Urban Requiems tinha acabado de sair na seqüência e rolou um monte de festivais, depois passamos por um período de vacas magras do cacete, até as coisas voltarem a melhorar no começo de 2007, com a Pure Dementia Tour. A expectativa agora é lançar o disco. Não quero saber de nada que não seja isso. O processo está nos matando aos poucos, já tem neguinho querendo voar no pescoço do outro (risos). Foda, começamos em maio do ano passado, era pra ter saído em outubro, não sabemos mais nem que desculpa dar às pessoas (risos)... Mas que sai, sai. Quanto a temores... eu diria que não conseguir manter a formação e/ou não saber o que fazer caso a mesma se desintegre. Quais novas tecnologias vamos agregar na forma como fazemos nosso som... isso também me tira o sono, às vezes. Mas, quanto a ter problemas com aceitação diante das mudanças estilísticas pelas quais o Plastique Noir deverá passar, com isso eu não tenho problemas. Quero que sejamos, antes de mais nada, honestos conosco próprios.
Mazela - banda
é como romance: umas fodas boas, outras nem tanto... Mas geralmente gozamos
no processo mais do que brochamos, huhuhu.
5. Falem de shows que ficaram na memória de vocês, algumas
curiosidades que os envolvam...
Mazela - Todo show
tem um encanto próprio, mas têm alguns que seja pelo clima, seja
pela qualidade do som, seja pelo feedback do público, pelas comédias
ficam guardados com mais carinho mesmo... Nosso primeirão foi fodástico,
numa sexta-feira 13 e já lançando Offering (nosso primeiro disco)...
Fazia um tempinho que eu não subia num palco e deu aquela adrenalina...
Perder a virgindade de Plastique foi massa, ainda mais no extinto e saudoso
Noise 3D Club (grande celeiro de bandas cearenses)! No Ponto.CE também
foi bem intenso, foi o maior palco que eu já tinha tocado, uma mega-estrutura
muito profissional. No Motel 90 (um conhecido prostíbulo de nosso Centro)
foi uma putaria (literalmente, huhuhu), nós tocando e uma moça
de família fazendo strip! Um show que fizemos aqui no Hey Ho Rock Bar
onde, no meio de Six Feet Under (numa parte onde fica algo meio hard rock) eu
agitando (sempre me mexo bastante no palco) e acabei caindo do palco de bunda
no chão!hehehehe. Como o show não pode parar eu levantei e subi
nele como se nada tivesse acontecido, fazendo minhas caras e bocas debaixo de
muitos risos e aplausos... O I Nordeste Gothic Reunion em Salvador foi ótimo
também, público super-lotando todos os cantos da Zauber... Em
Campina Grande também tivemos ótimo público que agitou
sem parar e demos vários autógrafos pra galera (assim como em
Salvador) em cópias do Urban Requiems, que então promovíamos...
E pra finalizar não poderia esquecer de Brasília, onde tocamos
com a Banda Invisível no Landscape pra um público numeroso (tinha
até um fã nosso de Minas), onde nos divertimos pra valer (é,
trevosos, o rock é pra ser divertido e sempre rimos à beça)
e acho que nunca me droguei tanto quanto naquela semana que passamos por lá,
ehehehehhe.
Airton - Gostei muito do Ponto.CE, do I NGR, do lançamento de Urban Requiems
em Brasília, do Dança das Sombras III no saudoso Noise 3D e de
quando tocamos com A Banda Invisível de novo, mas daquela vez já
aqui em Fortaleza, num depósito super underground...
6. Vocês não se cansam de sempre terem que responder as mesmas perguntas, do tipo: "de onde veio o nome da banda"? "Vocês são depressivos"? "Fazem orgias em cemitério"?
Airton - Muito.
Felizmente existem os comandos copiar/colar, que poupam nosso tempo.
Mazela - Puta que me pariu, não sinto cansado, e sim morto! Com todo
o respeito por todo mundo que entrevista bandas, mas há tanta coisa a
ser abordada além de supostas trevosidades e obviedades... Podiam ao
menos sacar nossas entrevistas anteriores pra não caírem numa
repetição enfadonha que nada acrescenta a quem lê e quer
saber mais do Plastique Noir. Já tem tanto jornalista incompetente que
ama falar das mesmíssimas coisas... Aos preguiçosos: leiam os
textos de críticos/entrevistadores como Lester Bangs, Simon Reynolds,
Mick Mercer, assim como alguns da BIZZ e de outras revistas bacanas... Pode
ser muito inspirador!
7. Como é a relação de vocês com bandas independentes nacionais, dentro e fora do gótico?
Airton - Dentro do gótico, muito sadia. Se tem neguinho arrogante, fofoqueiro e treteiro nesse meio, você pode perceber que se trata sempre daqueles que não tem banda, não produz evento, não faz nada, não tem o que mostrar exceto sua fantasia nova de gótico comprada na loja mais próxima. A gente se dá muito bem com o pessoal do Nordeste (Orquídeas Francesas, Jardim do Silêncio, Modus Operandi, CLarisse Revel, Espace) e de outros centros, como o Scarlet Leaves (Jean é meu "suporte 24 horas" para assuntos técnico-eletrônicos), Days Are Nights (Dennis, uma pessoa de boa índole e coração, acima de qualquer suspeita) e A Banda Invisível (nossos irmãos de alma, putz, pessoas idênticas a gente, no espírito marginal, transgressor, até mesmo criminoso e da putaria pesada). Fora do gótico, em Fortaleza pelo menos, nos relacionamos bem em todos os meios, tanto mais que a cidade está meio que em evidência na imprensa fonográfica. Tem rolando um exôdo fudido de gente daqui descendo pra sampa. Particularmente temos uma boa relação com algumas bandas: Telerama (estamos torcendo por vocês no SXSW 2008 no Texas!), Fóssil (profissionalíssimos), Joseph K (idem), Red Run (a exemplo dA Banda Invisível: gente como a gente, passagens verídicas pela polícia, clínicas de reabilitação e perdas de entes queridos) e Montage (we trust you and our dealers too, club kids). Só som sem frescura, é tudo nosso e foda-se...
Mazela - Até
agora não tivemos treta com simplesmente nenhuma banda ou com quem quer
que seja; fazemos é questão de sermos diplomáticos e éticos;
fazer amigos é tão bacana que não vejo motivo pra buscar
inimigos, pois tamos todos na mesma batalha. Cito também como figuras
queridas: Kohbaia, Ark of Sin, O Garfo, Jardim do Silêncio, Escarlatina
Obsessiva...
8. Qual é a maior qualidade e o maior defeito do Plastique Noir,
para vocês?
Airton - Qualidade: todos os quatro já quebraram a cara antes e aprenderam a fazer as coisas de um jeito diferente dessa vez. Agora estamos todos quebrando a cara em obstáculos novos. Defeito: falta de unidade.
Mazela - Qualidades: criatividade e vontade de prosseguir sempre. Defeitos: ainda falta uma gravadora pra nos apoiar e o Airton é muito chato, huhuuh.
9. Do que vocês mais gostam desde que estão na banda e em função a ela? E o que mais odeiam?
Airton - Eu gosto da chance que estou tendo de poder tocar e cantar das formas mais simples possíveis. Em minhas bandas anteriores, esbanjar técnica se sobrepunha à expressão. Mas mesmo essa minha experiência excessivamente em função da técnica foi proveitosa, porque agora estou podendo utilizar o aprendizado adquirido. Odeio: não saber em que confiar, assim como também odeio as cobranças e a responsabilidade, como se, para provar minha hombridade, eu precise estar sempre um passo a frente de outras bandas que se encontram no mesmo patamar que nós. Preciso aprender a ignorar isso, mas até então não tenho conseguido muito.
Mazela - Adoro
nosso intercâmbio musical e nossa amizade. Odeio a falta de apoio que
artistas promissores sofrem nesta joça. Mas, avante!
10. Quais as visões políticas da banda?
Mazela - As piores possíveis. Pra mim esse país é um puteiro
de brilho fugaz onde o povo é pra lá de conformista e bunda-mole.
O brasileiro esqueceu (se é que já teve) o dom da revolta. Como
putas baratas, abrimos as pernas pra qualquer coisa nos dominar, de fora (imperialismos
fascistóides sobretudo dos EUA) e de dentro: a corrupção
cresce assustadoramente, é gente trocando a própria mãe
por um prato de farinha ou uma pedra de crack, violência simbólica,
física e cultural... Odeio tanto a esquerda quanto a direita e sigo meu
próprio caminho - digamos que sou anarco-dionisíaco. Só
voto nulo e nunca militei por nada além de arte, ciência e sexo.
Como faço mestrado em Sociologia discuto isso bastante com meus colegas,
mas acaba sendo chato, pois nos vejo num beco sem saída: ou esta chibata
muda ou nos lascamos todos! Na banda não fazemos críticas diretas,
mas sempre somos sarcásticos e ando pensando com o Airton em uma nova
letra: "Michel Temer Is Christopher Lee (vampires in the Congress)"!
huhuhuh. Acho bacana estudar política, mas não interceder nela
diretamente. Sou afiliado do PHD: Partido do Hedonismo Destrutivo.
Airton - O Brasil
anda muito sem autoridade interna. Eu abriria mão de algumas liberdades
civis se fosse em prol de torrar a bandidagem sumariamente. Não faria
mal se alguns hippies fossem no embalo. E sim, Michel Temer além de ser
a cara do Christopher Lee, é realmente o Drácula. Já repararam
como ele nunca envelhece, sempre pega as novinhas e na hora do pau no congresso
ele nunca está no olho do furacão?