Entrevista concedida por Paulo Gotoh (vocal) da Banda Elegia no 1º Semestre de 2008.
Veja também Elegia em nosso ABC de Bandas

1- O Elegia está há bastante tempo na estrada e se consolidou como um dos primeiros nomes que vem a nossa mente quando pensamos em "gothic rock no Brasil". O que permaneceu do Elegia fundado no final dos anos 80 e o que mudou no Elegia atual?
Dos quatro membros que fundaram o elegia em 1989 restam dois, Escobar e o Marcelo. Eu entrei em 90 na banda, a partir daí as letras passaram a ser em inglês, atualmente temos novamente letras em português também. Em termos de musicas o estilo permaneceu variado dentro de nossa proposta de fazer música não se preocupando muito em seguir padrões ou rótulos, por isso as músicas são diferentes umas das outras num mesmo álbum, usando um elemento ou outro de nossas influências, que, a grosso modo, vieram principalmente de bandas inglesas dos anos 80, do post-punk e suas ramificações, e também procuramos conhecer as influências de nossas influências o que nos fez conhecer bandas dos anos 70, 60 e 50. Isso no conceito. A proposta sempre foi utilizar o mínimo de recursos, usando o trio básico, guitarra, baixo e bateria, além dos vocais, é claro. Aos poucos introduzimos outros elementos sem nos desviarmos da proposta inicial, como percursão eletrônica e a viola. Muitos perguntam se iremos usar teclados, mas acho que não, talvez numa música ou outra como participação especial, mas não com um novo membro fixo na banda. Pois o mais complicado de mais um membro na banda seria a afinidade, às vezes não é a habilidade com o instrumento que torna uma pessoa membro de uma banda, mas a amizade, cumplicidade, afinidades e harmonia com os integrantes dela, isso sem falar que o palco ficaria mais apertado ainda...

2- Qual é a formação atual do Elegia, e desde quando esta formação está junta?
A formação atual e que vem se mostrando a mais estável de todas é: Escobar (bateria), Emerson Deniz (baixo, viola, back-up vocals), Marcelo D'Angelo (guitarra, vocais, backup vocals), Mayumi (backup vocals) e eu nos vocais. Essa formação vem desde de 2001, com a entrada da Mayumi na banda, mas a entrada do Emerson no instrumento onde mais tivemos trocas (baixo) em 1998 na banda foi um elemento chave no trio guitarra, baixo e bateria, desde então estabilizando a banda e ajudando muito no desenvolvimento do som, sem contar as inúmeras composições que ele nos apresenta sempre.

3- Como vocês avaliariam a evolução da sonoridade da banda desde o álbum Underworld (2004)?
Agora estamos compondo todos juntos, o que não aconteceu no álbum anterior, e isso por si só já é uma grande evolução, e tem sido bom pois podemos opinar a respeito de determinada música na hora. É claro que desde aquela época os recursos de gravação que possuíamos vem melhorando bastante e isso contribui ainda mais para o aprimoramento do som que estamos compondo. E como estamos mais experientes é natural um amadurecimento nas composições.

4- Depois do single de Butterfly em 2007 podemos esperar um novo álbum do Elegia daqui a algum tempo?
Sim, em breve devemos lançar nosso próximo álbum, estamos com várias outras músicas prontas e mais algumas ainda em processo de finalização. Muitas dessas já estamos apresentando em nossos shows mais recentes. Ficamos alguns meses sem ensaiar o que causou um atraso nas gravações. Mas demos um tempo com os shows e assim estamos ensaiando periodicamente acelerando o processo de gravação. O primeiro show de 2008 foi só dia 06 de abril. Não gosto de divulgar data sem ter nada confirmado, mas se tudo der certo talvez para o final deste semestre deveremos lançar nosso novo álbum.

5- Como foram as experiências do Elegia sendo convidado e se apresentando no maior festival Gótico do mundo em 2000 e 2001, o WGT na Alemanha?
Foram inacreditáveis, foi algo muito além do que esperávamos. Tudo começou em 1999 quando acompanhei o Haruhiko Ash (Eve of Destiny) que se apresentou aquele ano no WGT, acabei entrando em contato com um dos organizadores, pois aproveitaria e faria uma cobertura do evento para o Sepia Zine do Cid Vale Ferreira (quem me apresentou o contato da organização), então durante o VIII WGT acabei conhecendo pessoalmente esse organizador e deixei uma demo nossa com ele sem muitas pretenções. Em alguns meses depois veio o convite para tocar no IX WGT (2000), eu nem acreditei, pois nem esperava tanto. O convite, assim como para várias bandas iniciantes, não incluía as passagens aéreas que deveriam ser por conta da banda. Por isso tivemos que nos desdobrar para podermos conseguir as passagens. Vendemos camisetas, angariamos fundos em shows, parcelamos as passagens e fomos. Ao chegarem lá os outros membros que não conheciam o festival pessoalmente ficaram espantados com a estrutura e o tamanho do festival, pois ocorrem durante os 4 dias shows todos ao mesmo tempo em inúmeros locais em Leipzig. Por lá encontramos com o pessoal de várias bandas no hotel, tomávamos café-da-manhã juntos com outros artistas que se apresentariam por lá. Tocamos no sábado dia 10 de Junho em 2000 e estávamos muito nervosos devido à responsabilidade, éramos a primeira banda brasileira a participar do evento e uma das primeiras da América Latina, tocamos depois de Whispers In The Shadows e antes de Sunshine Blind, os integrantes dessas bandas eram muito simpáticos, conversamos com alguns deles no back-stage. No dia seguinte ao nosso show aconteceu algo estranho, os organizadores fizeram um evento grande demais e acabaram quebrando, muitos artistas não se apresentaram e foram embora porque não receberam cachê, e estavam protestando no palco principal do Agra Hall, e nós por lá sem entendermos alemão não sabíamos de nada, de repente o nosso contato veio nos pedir para tocar novamente, pois muitos artistas haviam cancelado suas apresentações, e nós aceitamos contentes pois não estávamos recebendo cachê desde o início, então poder tocar novamente seria ótimo, e foi demais, porque dessa vez tocamos até mais calmos e o pessoal de várias revistas como Sonic Seducer e Zillo acabaram assistindo nosso show, e bons comentários a respeito de nós apareceram na cobertura do WGT nessas revistas. Esse festival também foi marcante pois foi onde lançamos nosso primeiro álbum "elegia". No ano seguinte fomos novamente convidados para tocar, e fizemos um show antes da abertura do festival no Moritzbastei em Leipzig, foi um dos melhores que tivemos por lá, o local em si é muito impressionante, todo feito no subterrâneo com arcos e várias galerias e tijolos à vista, e a recepção do público foi calorosa. No WGT novamente no sábado tocamos no Parkbüne, um palco maior do que da primeira vez, onde aconteceram uns fatos curiosos: na barraca do back-stage havia uma bandeira do Brasil (com o círculo central em 90o provavelmente para ser asteada em ângulo reto), mas foi por coincidência. Por um erro na comunicação o kit da bateria que pedimos em nosso tech-rider não estava lá na hora do show e tocamos com a bateria emprestada da banda Janus, que deveria se apresentar depois de nós eles acabaram tendo que tocar antes e foram muito gentis depois nos emprestando o kit de bateria deles. O show foi muito bom. E depois disso fomos convidados a participar do livro Gothic II de Peter Matzke e Tobias Seelinger, a banda e Mayumi foi fotografada pelo Tobias e eles pediram para que falássemos sobre as cenas do Brasil e do Japão. Pode-se se dizer que somos uma banda de sorte por tocar 4 vezes na Alemanha sendo duas vezes numa única edição do WGT o que é raridade.

6) Por algum tempo o Elegia foi uma banda "translocal" :-), ou seja, compondo com os integrantes espalhados pelo mundo. Como foi esse processo? Ele influenciou no caráter do trabalho da banda?
Tudo começou em 95, a banda estava com o Marcelo e o Escobar no Japão. E depois me juntei a eles por lá, porém alguns meses depois eles decidiram voltar para o Brasil e eu fiquei mais tempo. Ficamos praticamente parados até que saiu o primeiro registro da banda em CD na compilação "...Off Noise!" em 97, com gravações feitas ainda em 95 no Japão. Em 1999 as gravações do álbum foram aceleradas para que pudéssemos lançá-lo em 2000 no WGT, mas o processo ainda assim era lento, pois eles gravaram o instrumental no Hocus Pocus, estúdio no qual o Marcelo é sócio e me enviaram a fita ADAT para que eu colocasse os vocais nele, num estúdio no Japão. Eu enviei as gravações de volta e eles mixaram e masterizaram no Brasil. Na verdade influenciou pouco, mais o tempo de gravação que foi corrido demais no primeiro, e no segundo álbum foi feito mais com calma, entretanto levou muito mais tempo. Inclusive nos shows no Brasil da época em que eu estava no Japão eu não estava participando, e só fui ensaiar com eles novamente quando estivemos juntos em Leipzig, antes disso o instrumental eles ensaiavam juntos e eu ensaiava a minha parte sozinho, como num karaoke. Isso durou até 2005, então voltei para o Brasil e desde então estamos juntos, o que já melhorou em muito nossas performances ao vivo e as composições também.

7) Como você vê o cenário de bandas Góticas/Darkwave/Pos-Punk brasileiras de hoje, da "geração myspace" em comparação com a geração de meados dos anos 90 ?
Agora parece que há um número bem maior de bandas do estilo, o que é bom, pois aparentemente houve um crescimento da cena. Mas é interessante que isso não fique apenas no mundo virtual, felizmente estão acontecendo vários movimentos visando o amadurecimento e dispondo palco para essas bandas se apresentarem. As bandas de meados dos anos 90 acompanhei mais de longe, estava no Japão na época, muitas delas não resistiram ao, às vezes, ingrato underground e acabaram, o que é uma pena.

8- Parafraseando os Ramones "we're a Goth family, we're a Goth family, and we don't care? " :-) Como é para você manter uma identidade alternativa ao longo de tanto tempo?
Acho que todos na banda já tinham essa "identidade" desde antes de formarem a banda, é um inconformismo com os padrões estabelecidos em que a banda seria a materialização e expressão dessas idéias. Nós convivemos principalmente pelo grau de amizade e afinidade que temos há anos. Muitas vezes nos adaptamos às situações para conseguirmos viver em harmonia uns com os outros e com as pessoas ao redor. Tolerância e bom senso ajudam muito nessa hora e nunca devem ser dispensados. E além disso, nós somos de fato uma família, Escobar é meu irmão, Marcelo é seu cunhado, Mayumi minha esposa e o Emerson, bem nós o adotamos de coração. Acho que para nós de certo modo é fácil ser outsiders, porque sempre fomos deixados de lado pela maioria mesmo.

9- Os membros do Elegia tem projetos paralelos relacionados à sonoridade Gotica/Darkwave/Pos-Punk?
O único projeto paralelo que temos ligado a esses estilos é o projeto ECLIPSE que é uma festa que organizamos aqui em S. José dos Campos, para promover e dar uma opção aos amantes do estilo, onde muitas vezes nos apresentamos por lá também, discotecamos e sempre convidando uma banda para mostrar seu trabalho. O Marcelo teve o Fuzzbox, trabalho solo com participações de convidados. O Emerson tem inúmeras participações em bandas da região principalmente com a viola. Mas por enquanto é só.

10- Quais os melhores links online para conhecer e ouvir o Elegia?
Atualmente os nossos sites são: www.myspace.com/3legia www.youtube.com/user/3legia www.fotolog.com/elegia e a comunidade no orkut.


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