1- O Elegia
está há bastante tempo na estrada e se consolidou como um dos
primeiros nomes que vem a nossa mente quando pensamos em "gothic rock no
Brasil". O que permaneceu do Elegia fundado no final dos anos 80 e o que
mudou no Elegia atual?
Dos quatro membros que fundaram o elegia em 1989 restam dois, Escobar e o Marcelo.
Eu entrei em 90 na banda, a partir daí as letras passaram a ser em inglês,
atualmente temos novamente letras em português também. Em termos
de musicas o estilo permaneceu variado dentro de nossa proposta de fazer música
não se preocupando muito em seguir padrões ou rótulos,
por isso as músicas são diferentes umas das outras num mesmo álbum,
usando um elemento ou outro de nossas influências, que, a grosso modo,
vieram principalmente de bandas inglesas dos anos 80, do post-punk e suas ramificações,
e também procuramos conhecer as influências de nossas influências
o que nos fez conhecer bandas dos anos 70, 60 e 50. Isso no conceito. A proposta
sempre foi utilizar o mínimo de recursos, usando o trio básico,
guitarra, baixo e bateria, além dos vocais, é claro. Aos poucos
introduzimos outros elementos sem nos desviarmos da proposta inicial, como percursão
eletrônica e a viola. Muitos perguntam se iremos usar teclados, mas acho
que não, talvez numa música ou outra como participação
especial, mas não com um novo membro fixo na banda. Pois o mais complicado
de mais um membro na banda seria a afinidade, às vezes não é
a habilidade com o instrumento que torna uma pessoa membro de uma banda, mas
a amizade, cumplicidade, afinidades e harmonia com os integrantes dela, isso
sem falar que o palco ficaria mais apertado ainda...
2- Qual é
a formação atual do Elegia, e desde quando esta formação
está junta?
A formação atual e que vem se mostrando a mais estável
de todas é: Escobar (bateria), Emerson Deniz (baixo, viola, back-up vocals),
Marcelo D'Angelo (guitarra, vocais, backup vocals), Mayumi (backup vocals) e
eu nos vocais. Essa formação vem desde de 2001, com a entrada
da Mayumi na banda, mas a entrada do Emerson no instrumento onde mais tivemos
trocas (baixo) em 1998 na banda foi um elemento chave no trio guitarra, baixo
e bateria, desde então estabilizando a banda e ajudando muito no desenvolvimento
do som, sem contar as inúmeras composições que ele nos
apresenta sempre.
3- Como vocês
avaliariam a evolução da sonoridade da banda desde o álbum
Underworld (2004)?
Agora estamos compondo todos juntos, o que não aconteceu no álbum
anterior, e isso por si só já é uma grande evolução,
e tem sido bom pois podemos opinar a respeito de determinada música na
hora. É claro que desde aquela época os recursos de gravação
que possuíamos vem melhorando bastante e isso contribui ainda mais para
o aprimoramento do som que estamos compondo. E como estamos mais experientes
é natural um amadurecimento nas composições.
4- Depois
do single de Butterfly em 2007 podemos esperar um novo álbum do Elegia
daqui a algum tempo?
Sim, em breve devemos lançar nosso próximo álbum, estamos
com várias outras músicas prontas e mais algumas ainda em processo
de finalização. Muitas dessas já estamos apresentando em
nossos shows mais recentes. Ficamos alguns meses sem ensaiar o que causou um
atraso nas gravações. Mas demos um tempo com os shows e assim
estamos ensaiando periodicamente acelerando o processo de gravação.
O primeiro show de 2008 foi só dia 06 de abril. Não gosto de divulgar
data sem ter nada confirmado, mas se tudo der certo talvez para o final deste
semestre deveremos lançar nosso novo álbum.
5- Como foram
as experiências do Elegia sendo convidado e se apresentando no maior festival
Gótico do mundo em 2000 e 2001, o WGT na Alemanha?
Foram inacreditáveis, foi algo muito além do que esperávamos.
Tudo começou em 1999 quando acompanhei o Haruhiko Ash (Eve of Destiny)
que se apresentou aquele ano no WGT, acabei entrando em contato com um dos organizadores,
pois aproveitaria e faria uma cobertura do evento para o Sepia Zine do Cid Vale
Ferreira (quem me apresentou o contato da organização), então
durante o VIII WGT acabei conhecendo pessoalmente esse organizador e deixei
uma demo nossa com ele sem muitas pretenções. Em alguns meses
depois veio o convite para tocar no IX WGT (2000), eu nem acreditei, pois nem
esperava tanto. O convite, assim como para várias bandas iniciantes,
não incluía as passagens aéreas que deveriam ser por conta
da banda. Por isso tivemos que nos desdobrar para podermos conseguir as passagens.
Vendemos camisetas, angariamos fundos em shows, parcelamos as passagens e fomos.
Ao chegarem lá os outros membros que não conheciam o festival
pessoalmente ficaram espantados com a estrutura e o tamanho do festival, pois
ocorrem durante os 4 dias shows todos ao mesmo tempo em inúmeros locais
em Leipzig. Por lá encontramos com o pessoal de várias bandas
no hotel, tomávamos café-da-manhã juntos com outros artistas
que se apresentariam por lá. Tocamos no sábado dia 10 de Junho
em 2000 e estávamos muito nervosos devido à responsabilidade,
éramos a primeira banda brasileira a participar do evento e uma das primeiras
da América Latina, tocamos depois de Whispers In The Shadows e antes
de Sunshine Blind, os integrantes dessas bandas eram muito simpáticos,
conversamos com alguns deles no back-stage. No dia seguinte ao nosso show aconteceu
algo estranho, os organizadores fizeram um evento grande demais e acabaram quebrando,
muitos artistas não se apresentaram e foram embora porque não
receberam cachê, e estavam protestando no palco principal do Agra Hall,
e nós por lá sem entendermos alemão não sabíamos
de nada, de repente o nosso contato veio nos pedir para tocar novamente, pois
muitos artistas haviam cancelado suas apresentações, e nós
aceitamos contentes pois não estávamos recebendo cachê desde
o início, então poder tocar novamente seria ótimo, e foi
demais, porque dessa vez tocamos até mais calmos e o pessoal de várias
revistas como Sonic Seducer e Zillo acabaram assistindo nosso show, e bons comentários
a respeito de nós apareceram na cobertura do WGT nessas revistas. Esse
festival também foi marcante pois foi onde lançamos nosso primeiro
álbum "elegia". No ano seguinte fomos novamente convidados
para tocar, e fizemos um show antes da abertura do festival no Moritzbastei
em Leipzig, foi um dos melhores que tivemos por lá, o local em si é
muito impressionante, todo feito no subterrâneo com arcos e várias
galerias e tijolos à vista, e a recepção do público
foi calorosa. No WGT novamente no sábado tocamos no Parkbüne, um
palco maior do que da primeira vez, onde aconteceram uns fatos curiosos: na
barraca do back-stage havia uma bandeira do Brasil (com o círculo central
em 90o provavelmente para ser asteada em ângulo reto), mas foi por coincidência.
Por um erro na comunicação o kit da bateria que pedimos em nosso
tech-rider não estava lá na hora do show e tocamos com a bateria
emprestada da banda Janus, que deveria se apresentar depois de nós eles
acabaram tendo que tocar antes e foram muito gentis depois nos emprestando o
kit de bateria deles. O show foi muito bom. E depois disso fomos convidados
a participar do livro Gothic II de Peter Matzke e Tobias Seelinger, a banda
e Mayumi foi fotografada pelo Tobias e eles pediram para que falássemos
sobre as cenas do Brasil e do Japão. Pode-se se dizer que somos uma banda
de sorte por tocar 4 vezes na Alemanha sendo duas vezes numa única edição
do WGT o que é raridade.
6) Por algum
tempo o Elegia foi uma banda "translocal" :-), ou seja, compondo com
os integrantes espalhados pelo mundo. Como foi esse processo? Ele influenciou
no caráter do trabalho da banda?
Tudo começou em 95, a banda estava com o Marcelo e o Escobar no Japão.
E depois me juntei a eles por lá, porém alguns meses depois eles
decidiram voltar para o Brasil e eu fiquei mais tempo. Ficamos praticamente
parados até que saiu o primeiro registro da banda em CD na compilação
"...Off Noise!" em 97, com gravações feitas ainda em
95 no Japão. Em 1999 as gravações do álbum foram
aceleradas para que pudéssemos lançá-lo em 2000 no WGT,
mas o processo ainda assim era lento, pois eles gravaram o instrumental no Hocus
Pocus, estúdio no qual o Marcelo é sócio e me enviaram
a fita ADAT para que eu colocasse os vocais nele, num estúdio no Japão.
Eu enviei as gravações de volta e eles mixaram e masterizaram
no Brasil. Na verdade influenciou pouco, mais o tempo de gravação
que foi corrido demais no primeiro, e no segundo álbum foi feito mais
com calma, entretanto levou muito mais tempo. Inclusive nos shows no Brasil
da época em que eu estava no Japão eu não estava participando,
e só fui ensaiar com eles novamente quando estivemos juntos em Leipzig,
antes disso o instrumental eles ensaiavam juntos e eu ensaiava a minha parte
sozinho, como num karaoke. Isso durou até 2005, então voltei para
o Brasil e desde então estamos juntos, o que já melhorou em muito
nossas performances ao vivo e as composições também.
7) Como você
vê o cenário de bandas Góticas/Darkwave/Pos-Punk brasileiras
de hoje, da "geração myspace" em comparação
com a geração de meados dos anos 90 ?
Agora parece que há um número bem maior de bandas do estilo, o
que é bom, pois aparentemente houve um crescimento da cena. Mas é
interessante que isso não fique apenas no mundo virtual, felizmente estão
acontecendo vários movimentos visando o amadurecimento e dispondo palco
para essas bandas se apresentarem. As bandas de meados dos anos 90 acompanhei
mais de longe, estava no Japão na época, muitas delas não
resistiram ao, às vezes, ingrato underground e acabaram, o que é
uma pena.
8- Parafraseando
os Ramones "we're a Goth family, we're a Goth family, and we don't care?
" :-) Como é para você manter uma identidade alternativa ao
longo de tanto tempo?
Acho que todos na banda já tinham essa "identidade" desde antes
de formarem a banda, é um inconformismo com os padrões estabelecidos
em que a banda seria a materialização e expressão dessas
idéias. Nós convivemos principalmente pelo grau de amizade e afinidade
que temos há anos. Muitas vezes nos adaptamos às situações
para conseguirmos viver em harmonia uns com os outros e com as pessoas ao redor.
Tolerância e bom senso ajudam muito nessa hora e nunca devem ser dispensados.
E além disso, nós somos de fato uma família, Escobar é
meu irmão, Marcelo é seu cunhado, Mayumi minha esposa e o Emerson,
bem nós o adotamos de coração. Acho que para nós
de certo modo é fácil ser outsiders, porque sempre fomos deixados
de lado pela maioria mesmo.
9- Os membros
do Elegia tem projetos paralelos relacionados à sonoridade Gotica/Darkwave/Pos-Punk?
O único projeto paralelo que temos ligado a esses estilos é o
projeto ECLIPSE que é uma festa que organizamos aqui em S. José
dos Campos, para promover e dar uma opção aos amantes do estilo,
onde muitas vezes nos apresentamos por lá também, discotecamos
e sempre convidando uma banda para mostrar seu trabalho. O Marcelo teve o Fuzzbox,
trabalho solo com participações de convidados. O Emerson tem inúmeras
participações em bandas da região principalmente com a
viola. Mas por enquanto é só.
10-
Quais os melhores links online para conhecer e ouvir o Elegia?
Atualmente os nossos sites são: www.myspace.com/3legia www.youtube.com/user/3legia
www.fotolog.com/elegia e a comunidade no orkut.